Coleguismo e impunidade dá a deputados garantia de reeleição

Analistas comentam o caso do deputado que 'se lixa' para opinião pública e está no seu sétimo mandato

Andréia Sadi, do estadao.com.br,

11 de maio de 2009 | 10h23

A declaração do deputado federal Sérgio Moraes (PTB-RS) de que "se lixa" para a opinião pública trouxe mais um constrangimento à Câmara, que tenta recuperar sua imagem após o recente escândalo da farra das passagens. Recém escolhido relator do processo do deputado Edmar Moreira (sem partido-MG), o "dono do castelo", no Conselho de Ética, Moraes se apressou em defender o colega: "Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem e nós nos reelegemos mesmo assim".

 

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Para o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília, a "segurança" do deputado sobre a sua permanência no cargo (ele tem sete mandatos) tem explicação. Deve-se, além da alienação da classe política em relação à sociedade, ao "coleguismo" dos pares.

 

"Senadores e deputados vão continuar se reelegendo porque não há interesse dos outros parlamentares irem contra eles. Por quê? Porque pode se voltar contra eles. O que os deputados que estão com ameaça de cassação dizem? Eles pensam: Hoje sou eu, amanhã pode ser você. Existe um pacto da não cobrança porque todos têm indícios na Justiça", afirmou o analista em entrevista ao estadao.com.br.

 

Caldas critica os parlamentares por se apoderarem do mandato em benefício próprio, em nome de seus projetos pessoais. Para ele, a classe política está alheia às demandas dos eleitores que os elegeram. "A classe política está alienada, a parte dos eleitores, do que eles pensam e deixam de pensar. Ela tem uma vida própria, age como acha que tem que agir. Para alcançar projetos pessoais, faz o que acha que tem que fazer como obter recursos ilícitos em campanhas e é assim que funciona o sistema. O sistema político brasileiro é movido à corrupção", disse.

 

O cientista político André Marenco, da UFRGS, acredita que a reeleição dos deputados é resultado da ineficiência de punição. "Há ocorrências de escândalos, mas não há correspondência entre a exposição de um escândalo e uma punição, aqui entendida como uma não reeleição". Segundo ele, como são muitos os deputados, o eleitor não consegue dar conta de todos os episódios envolvendo desvios e acaba se identificando com aquele que atende às suas demandas específicas, o que acontece nos currais eleitorais.

 

"Difícil acompanhar a quantidade de escândalos no noticiário, aí o sujeito que tem essa conexão eleitoral com sua base eleitoral tende a sobreviver por mais tempo. Sérgio Moraes tem público específico, tem reduto muito específico. Já foi prefeito de Santa Cruz, pelo PTB, que tem votação facilmente assistencialista, ele tem seus eleitores que não dão bola para este tipo de coisa mesmo. Ele sobrevive graças a isso", explica.

 

Na sexta-feira, o DEM anunciou que vai pedir a saída de Moraes da relatoria do caso Moreira. O deputado, no entanto, disse que não pediu para ocupar o cargo e por isso não tem porque deixá-lo. 'Eu não saio', afirmou.

 

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