Coadjuvante em 2006, Kassab já protagoniza discussão de 2010

Prefeito atua como bombeiro na negociação de palanques para eleição

Julia Duailibi e Pedro Venceslau, O Estadao de S.Paulo

25 de julho de 2009 | 00h00

Coadjuvante na eleição presidencial de 2006, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), tornou-se um dos principais protagonistas do tabuleiro político pelo qual passará a disputa nacional de 2010. Discretamente, ele tem mantido conversas sobre a corrida do ano que vem com interlocutores que vão do PT ao PSDB. São encontros que ocorrem, quase sempre, em cafés da manhã ou jantares na sua casa ou em um de seus restaurantes prediletos, cujos nomes estão disciplinadamente gravados na memória do seu aparelho celular. Com as credenciais de prefeito da maior capital do País e de presidente do conselho político do DEM, Kassab tem funcionado como uma espécie de "bombeiro" na discussão em torno dos palanques nacionais de seu partido - discussão relevantíssima para fortalecer a candidatura presidencial da aliança PSDB-DEM, seja ela em torno do governador José Serra (SP) ou do mineiro Aécio Neves.Em pelo menos 8 dos 27 Estados, PSDB e DEM enfrentam problemas de relacionamento, que podem inviabilizar a formação de um palanque conjunto. Recentemente, o prefeito entrou em campo para tentar resolver um imbróglio no Espírito Santo. O DEM capixaba resiste em embarcar na candidatura de Luiz Paulo Vellozo Lucas, pré-candidato tucano ao governo do Estado e grande aliado de Serra. O presidente do DEM local, o deputado estadual e presidente da Assembleia, Elcio Alvares, trabalha para que o partido integre a aliança patrocinada pelo governador Paulo Hartung (PMDB), que quer eleger seu vice, Ricardo Ferraço, sucessor, com o apoio do PT. "O DEM nacional tem dado mostras de que não aceitará compartilhar o palanque com o PT. E que deseja um palanque coerente com a aliança nacional aqui. O prefeito Gilberto Kassab defende isso. Deposito grande confiança na liderança dele", disse o deputado Vellozo Lucas.Antes de atuar na querela do Espírito Santo, Kassab participou da costura entre PSDB e DEM baianos, que se engalfinhavam no Estado desde 1998. A atuação de Kassab, por seu partido, e de Serra, pelos tucanos, levou à união em torno da candidatura de Paulo Souto (DEM) ao governo da Bahia.COMENSAIS Apontado como habilidoso articulador, Kassab tem procurado manter bom trânsito com adversários, com quem, vale dizer, também se mantém bem informado. Há pouco mais de dois meses almoçou na casa do vereador Arselino Tatto (PT), na zona sul de São Paulo, após participar de evento em um centro esportivo da região. Conversa com certa frequência com o deputado Antonio Palocci Filho (PT), que foi vice-presidente da Associação Paulista de Municípios (APM) no período em que o prefeito foi presidente (2000).Kassab almoça praticamente todos os dias na sede do Executivo municipal. Sem a pressão da agenda, aproveita a hora do jantar para os encontros políticos. Foi o que aconteceu na quarta-feira, no aniversário do ex-vice-presidente Marco Maciel no restaurante Magari, em São Paulo. Estavam na mesa o clã com quem o prefeito confidencia: o ex-senador Jorge Bornhausen, Cláudio Lembo, secretário de Negócios Jurídicos, Guilherme Afif Domingos, secretário estadual do Trabalho, e o ex-deputado Luiz Carlos Santos. Com Bornhausen, o cenário costuma ser o restaurante Freddy, no qual sempre pede dobradinha como prato.Nacionalmente, Kassab opera em missões com o presidente do partido, Rodrigo Maia. Frequentemente é chamado para apagar os "incêndios" causados pela "juventude" do partido, como é chamada pelos caciques a nova geração do DEM, capitaneada por Maia e o deputado ACM Neto (BA). DISPUTA ESTADUALPresidente estadual do DEM, também passa pelas mãos do prefeito a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. O DEM apoiará o candidato do PSDB - o ex-governador Geraldo Alckmin ou Aloysio Nunes Ferreira, o secretário estadual da Casa Civil, com quem Kassab mantém ótima relação. Embora prefira o nome de Aloysio, ele tem dito a aliados que é mais fácil ir contra uma decisão do DEM do que de Serra, que dará o veredicto sobre o assunto. A missão para preparar o partido para 2010 também passa pela proposta de eleger uma ampla bancada de deputados federais por São Paulo, o que causa calafrios nos tucanos, que temem ser canibalizados pelos aliados. A ideia é chegar a 12 parlamentares na Câmara - hoje são 6.O presidente do PPS, Roberto Freire (PE), que está de mudança para São Paulo, onde será candidato a deputado federal, é frequentador das "longuíssimas" reuniões políticas realizadas por Kassab em seu apartamento. Nelas, os dois fazem a manutenção da aliança entre as siglas nos Estados . A migração de Freire está sendo monitorada e apoiada pelo prefeito. Com a mudança, o núcleo estratégico do PPS passa a operar no Estado. "As reuniões na casa do Kassab são sempre longas, de três, quatro horas. Na última, há dois meses, estavam líderes de peso do PSDB. Entre eles Aloysio. Por isso evitamos discutir São Paulo e focamos a campanha presidencial", afirmou Freire.Um dos principais interlocutores de Kassab na Câmara Municipal, Carlos Apolinário (DEM) conta que o prefeito também costuma fazer "surpresas" para discutir política partidária. "Ele gosta de marcar reuniões no café da manhã na casa dele, especialmente quando o assunto é administrativo. Mas, às vezes, aparece em horas inusitadas. Outro dia, apareceu em casa, domingo, no meio da tarde", conta o vereador. A conversa nesse caso foi para tentar convencê-lo a integrar a chapa de candidatos a deputado pelo DEM, disse Apolinário.

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