CNV investiga 'operação limpeza' da ditadura em Goiás

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) e o Ministério Público Federal em Goiás (MPF) investigam o desaparecimento dos corpos dos militantes de esquerda Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado, metralhados em 17 de maio de 1973 e enterrados em cova clandestina, na chamada "operação limpeza" da ditadura militar. O crime ocorreu em uma fazenda de Rio Verde, no sudoeste goiano, onde os militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo) viviam disfarçados como trabalhadores rurais.

MARÍLIA ASSUNÇÃO, Agência Estado

17 de setembro de 2013 | 20h58

Integrantes do grupo Graves Violações de Direitos Humanos da CNV e o procurador da República Wilson Rocha Assis, da Procuradoria da República em Rio Verde, já ouviram o caseiro da fazenda, Eurípedes João da Silva, de 62 anos, que recebeu ordens para retirar os corpos de Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck do casebre onde foram mortos.

Em 1980, quando familiares de Maria Augusta e jornalistas tentavam localizar os corpos em Rio Verde, os restos mortais foram desenterrados por uma equipe federal e levados para local desconhecido. Foram localizados, entretanto, dentes, pequenos fragmentos de ossos e cartuchos de projéteis de arma de fogo, entregues para perícia em 1980. Esse material está sendo procurado nos arquivos da Justiça Estadual de Goiás.

No Arquivo Nacional a CNV localizou documento do Serviço Nacional de Informações (SNI) que demonstra "preocupação" com a descoberta do paradeiro dos corpos e com as denúncias sobre o enterro clandestino e a "operação limpeza". O documento menciona temor do SNI de vazamento da operação para a imprensa e para a Justiça.

Nesta terça-feira, 17, foi ouvido o médico cardiologista Vicente Guerra, que integrou o corpo médico da Polícia Militar de Goiás entre 1970 e 1996. O nome dele é mencionado no documento do SNI como o de uma das pessoas que sabiam do local de sepultamento, mas Guerra negou ter participado do enterro, em 1973, e da "operação limpeza", em 1980.

O médico contou no depoimento que foi levado à fazenda para analisar a cena, cerca de 6 horas após o crime, que classificou de "barbárie". Segundo ele, militares à paisana, provavelmente do Exército, comandaram o trabalho pericial. Segundo ele, foi constatado o uso de armamento pesado.

Maria Augusta era ativista no Molipo, tento participado do sequestro do Boeing 707 da Varig, desviado para Havana (Cuba) em novembro de 1969, entre outras ações que a tornaram procurada pela repressão. Em Cuba, como mostra o livro Luta Armada / ALN Molipo - As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz (2012), do jornalista Renato Dias, ela se aperfeiçoou como guerrilheira e depois voltou à ativa no Brasil.

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