CARLA CARNIEL/ REUTERS
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CNBB pede que Alesp puna deputado bolsonarista que chamou papa e arcebispo de vagabundos e pedófilos

Frederico D'Avila (PSL) usou a tribuna para chamar papa Francisco e o arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes, de 'vagabundos' e 'safados'; ofensas aconteceram depois de Brandes defender o desarmamento diante de Bolsonaro

Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 09h24
Atualizado 18 de outubro de 2021 | 17h50

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou, neste domingo, 17, uma carta destinada à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em que repudia as falas do deputado estadual Frederico D’Avila (PSL) aos membros da igreja Católica e cobra uma resposta “rápida” da Casa em relação ao episódio. Durante sessão plenária no último dia 14, o parlamentar chamou o arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes, e o papa Francisco de “pedófilos” e “vagabundos”.

A fala de D’Avila aconteceu depois de o arcebispo fazer um apelo pelo desarmamento durante a homilia na missa solene no Santuário Nacional no dia da santa padroeira do Brasil. “Para ser Pátria amada não pode ser pátria armada”, disse Dom Orlando em sua reflexão. E  completou: “Que seja uma Pátria sem ódio, uma República sem mentira e sem fake news”. Ao final, o arcebispo também reafirmou o pedido por vacina e se mostrou favorável à ciência.

O presidente Jair Bolsonaro esteve no dia 12 no Santuário e assistiu a uma outra missa. No dia seguinte, porém, afirmou que respeitava os bispos brasileiros, mas comparou o porte de armas com a liberdade. “O que acontecia no Brasil é que só os marginais e os bandidos tinham arma de fogo. Não pude aprovar a lei como queria, mas alteramos decretos e portarias para que a arma de fogo seja uma realidade”, disse o presidente.

Apoiador do governo federal, o deputado aproveitou cerca de dois minutos de seu tempo na tribuna para insultar o arcebispo e a CNBB. “(Quero) falar para o arcebispo Dom Orlando Brandes, seu vagabundo, safado da CNBB. Dando recadinho para o presidente, para a população brasileira, que ‘Pátria amada não é Pátria armada’. Pátria armada é a pátria que não se submete a essa gentalha”, disse ele. 

“Você, sim, se esconde atrás da sua batina para fazer proselitismo político, para converter as pessoas de bem para a sua ideologia”, continuou o deputado, que ainda xingou o arcebispo e o Papa Francisco de “safados” e “pedófilos”. O Estadão procurou o deputado e aguarda contato.

Na nota endereçada ao presidente da Alesp, o deputado Carlão Pignatari (PSDB), a CNBB rejeita as “abomináveis agressões” e pede “imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes”.

“Defensora e comprometida com o Estado Democrático de Direito, a CNBB, respeitosamente, espera dessa egrégia Casa Legislativa, confiando na sua credibilidade, medidas internas eficazes, legais e regimentais, para que esse ultrajante desrespeito seja reparado em proporção à sua gravidade – sinal de compromisso inarredável com a construção de uma sociedade democrática e civilizada”, continua o texto da CNBB.

Por fim, a conferência de bispos pede uma resposta rápida do presidente da Casa Legislativa. “A CNBB aguarda uma resposta rápida de vossa excelência – postura exemplar e inspiradora para todas as Casas Legislativas, instâncias judiciárias e demais segmentos para que a sociedade brasileira não seja sacrificada e nem prisioneira de mentes medíocres”, finaliza o texto.

O presidente da conferência, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, também publicou um vídeo em que registra o seu repúdio pela postura “anti-cristã” do deputado. “Neste momento, a CNBB está dedicada a fazer com que o parlamentar responda judicialmente por suas lastimáveis declarações”, afirma na gravação.

Em nota ao Estadão, o deputado Frederico D’Avila disse que a fala do arcebispo de Aparecida é um “flagrante desrespeito aos que pensam o contrário” e que “visou unicamente atacar o presidente da República e seus eleitores”. Em relação às declarações sobre o papa Francisco, o parlamentar reconheceu que se “excedeu nas palavras, pois o mesmo, além de líder religioso, também é Chefe de Estado.”

Em pronunciamento nesta segunda-feira, o presidente da Alesp Carlão Pignatari fez um pedido expresso de desculpas ao Papa Francisco e a dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, e também à CNBB e a todos os ofendidos pelas palavras do parlamentar, que "não representam a opinião da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo".

Na fala Pignatari disse acreditar que “o parlamentar também reconheça seu excesso” e abre o espaço para uma retratação. Ele também apela para que “os extremos entendam, de uma vez por todas, que a divergência legitima a democracia. Mas, não justifica a barbárie.”

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