CNBB condena voto secreto e aponta risco de apatia popular

Para OAB, resultado da sessão afeta a sociedade e deve servir de exemplo

José Maria Mayrink e Paulo Darcie, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 00h00

O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Dimas Lara Barbosa, considerou que a absolvição de Renan Calheiros causará um desgaste para o Senado "numa hora em que a classe política já não goza de boa reputação" e poderá ter como conseqüência uma sensação de apatia perigosa para a democracia."Será lamentável, se isso vier a ocorrer, porque existem bons parlamentares que colocam o mandato a serviço das boas causas", disse d. Dimas, em nome da presidência colegiada do episcopado. "Tenho a esperança de que os eleitores se manifestem de maneira criativa, nas próximas eleições, eliminando da vida pública os candidatos que não merecem voto."O secretário-geral da CNBB acreditava que Renan seria cassado. Para ele, essa era também a expectativa da maioria dos brasileiros. "Observei, durante esse longo processo de cassação, que o povo está amadurecendo na participação política e, por isso, deve ter ficado decepcionado com a absolvição de Renan. A votação mostrou um Senado dividido, mas a gente não sabe qual foi a posição de cada senador, pelo fato de a sessão ter sido secreta."D. Dimas admite que, em algumas circunstâncias, quando há pressões e interferências indevidas, se pode recorrer a sessões secretas para garantir a imparcialidade, mas não sabe se seria esse o caso. "Acho que o representante do povo deve dar conta do que faz", afirmou.Segundo ele, a presença de deputados na sessão pode ainda dar aos eleitores a chance de saber o que ocorreu. "A CNBB continuará a insistir na questão ética e a divulgar documentos voltados para a consciência do cidadão, sem fazer opção partidária, para que os eleitores sejam capazes de acompanhar a ação dos políticos em todos os níveis da vida parlamentar."ARRANHÃOO resultado do plenário também provocou reações de várias entidades. Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) lamentou a absolvição. "O resultado desta votação afeta a sociedade e deve servir de exemplo para que as votações futuras sejam abertas, propiciando maior controle por parte do eleitor sobre seu representante."Segundo Rodrigo Collaço, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), o Senado perdeu uma oportunidade de instalar um novo nível de ética na política brasileira. Ele também lamentou a sessão e a votação secretas, mas observou que, nos próximos dois processos a serem respondidos por Renan, a opinião pública e as condições de trabalho no Senado terão grande influência. "Se 35 senadores votaram contra ele, fica claro que a Casa está dividida." A imagem do Senado e da classe política, no entanto, são os mais prejudicados, segundo Collaço. Ele diz que o "arranhão" provocado pela decisão tira qualquer autoridade da figura do presidente da Casa.Cláudio Weber Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil, também destaca o desgaste da imagem do parlamento frente à população, mas não acredita que isso seja problema para os ocupantes da casa. "Eles não ligam, fazem tudo do jeito que lhes convém." Para Abramo, desde o início do processo, a manutenção da sessão secreta e a permanência de Renan no cargo de presidente já sinalizavam para a absolvição. "Eles (os senadores) se esconderam atrás do regimento interno porque têm vergonha do que fizeram."Abramo também não acredita que a pressão popular possa reverter o resultado nos próximos dois processos, pois a mobilização da sociedade foi muito pequena. "Os senadores vivem em um mundo que não é nosso, muito distantes do eleitor, e a sessão secreta deixou isso claro."ABSTENÇÕESA coordenadora-geral do Movimento Voto Consciente, Sônia Barboza, considerou as seis abstenções a pior faceta da votação de ontem. "Não era para botar a cara para bater, era só para dar opinião. Esses seis são os que menos merecem estar lá e não sabemos quem são." Como ponto positivo, ela também considera que se pode resgatar a discussão sobre as votações secretas no Senado. "A sociedade civil está vendo esse absurdo."

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