DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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CNBB condena 'barganha de emendas' e aponta 'ameaça' à democracia

Custo de emendas e concessões a parlamentares para barrar denúncias contra Temer gira em torno de R$ 32,1 bilhões

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2017 | 17h55

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma nota nesta quinta-feira, 26, dois dias depois da sessão da Câmara que impediu a investigação do presidente Michel Temer por obstrução à Justiça, na qual condena a “barganha na liberação de emendas parlamentares pelo governo” e faz um alerta sobre a situação social e política do país. Segundo a CNBB, existe um divórcio entre a classe política e a sociedade brasileira.

“A barganha na liberação de emendas parlamentares pelo Governo é uma afronta aos brasileiros (…). O divórcio entre o mundo político e a sociedade brasileira é grave”, adverte a CNBB.

O Estado revelou na quarta-feira que o custo das medidas e concessões feitas a parlamentares para barrar as duas denúncias contra Temer pode chegar a R$ 32 bilhões.

++ Custo de denúncias contra Temer alcança R$ 32,1 bi

Segundo a CNBB, as práticas políticas causam apatia e descaso pela democracia na população em geral e até nos movimentos sociais, tradicionalmente mais engajados. O cenário, segundo os bispos, propicia o surgimento de salvadores da pátria, “radicalismoe e fundamentalismos” e coloca em risco a democracia.

“Tais práticas ferem a política e a esperança dos cidadãos que parecem não mais acreditar na força transformadora e renovadora do voto. É grave tirar a esperança de um povo. Urge ficar atentos, pois, situações como esta abrem espaço para salvadores da pátria, radicalismos e fundamentalismos que aumentam a crise e o sofrimento, especialmente dos mais pobres, além de ameaçar a democracia no País”, diz a nota.

Segundo a CNBB, as saídas são o voto popular e manifestações pacíficas contra a retirada de direitos.

Leia a íntegra do documento:

Nota da CNBB sobre o atual momento político

Aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido” (Is 1,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através de seu Conselho Permanente, reunido em Brasília de 24 a 26 de outubro de 2017, manifesta, mais uma vez, sua apreensão e indignação com a grave realidade político-social vivida pelo País, afetando tanto a população quanto as instituições brasileiras.

Repudiamos a falta de ética, que há décadas, se instalou e continua instalada em instituições públicas, empresas, grupos sociais e na atuação de inúmeros políticos que, traindo a missão para a qual foram eleitos, jogam a atividade política no descrédito. A barganha na liberação de emendas parlamentares pelo Governo é uma afronta aos brasileiros. A retirada de indispensáveis recursos da saúde, da educação, dos programas sociais consolidados, do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), do Programa de Cisternas no Nordeste, aprofunda o drama da pobreza de milhões de pessoas. O divórcio entre o mundo político e a sociedade brasileira é grave.

A apatia, o desencanto e o desinteresse pela política, que vemos crescer dia a dia no meio da população brasileira, inclusive nos movimentos sociais, têm sua raiz mais profunda em práticas políticas que comprometem a busca do bem comum, privilegiando interesses particulares. Tais práticas ferem a política e a esperança dos cidadãos que parecem não mais acreditar na força transformadora e renovadora do voto. É grave tirar a esperança de um povo. Urge ficar atentos, pois, situações como esta abrem espaço para salvadores da pátria, radicalismos e fundamentalismos que aumentam a crise e o sofrimento, especialmente dos mais pobres, além de ameaçar a democracia no País.

Apesar de tudo, é preciso vencer a tentação do desânimo. Só uma reação do povo, consciente e organizado, no exercício de sua cidadania, é capaz de purificar a política, banindo de seu meio aqueles que seguem o caminho da corrupção e do desprezo pelo bem comum. Incentivamos a população a ser protagonista das mudanças de que o Brasil precisa, manifestando-se, de forma pacífica, sempre que seus direitos e conquistas forem ameaçados.

Chamados a “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18) e certos de que Deus não nos abandona, contamos com a atuação dos políticos que honram seu mandato, buscando o bem comum.

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, anime e encoraje seus filhos e filhas no compromisso de construir um País justo, solidário e fraterno.

Brasília, 26 de outubro de 2017

 

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