Cadu Gomes|EFE
Cadu Gomes|EFE

Clima de despedida e assédio a Chico no 'camarote' petista

Comitiva assiste ao depoimento no Senado; ex-presidente Lula lamenta defesa ‘tardia’

Vera Rosa e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2016 | 01h01

BRASÍLIA - Foi da galeria do Senado que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanhou ontem o pronunciamento da presidente afastada Dilma Rousseff, sua sucessora no Palácio do Planalto, na última defesa contra o impeachment. Em tom emocionado, disse aos aliados que, a partir de agora, o PT precisa se preparar para a disputa de 2018, com “oposição implacável” ao governo de Michel Temer.

O ex-presidente fez parte do grupo de 28 convidados que acompanharam Dilma ontem no Senado. O mais assediado, no entanto, era o cantor e compositor Chico Buarque, que se sentou ao lado do petista na galeria do plenário da Casa. Durante o interrogatório, vários senadores foram cumprimentá-lo e fazer selfies. Até mesmo parlamentares favoráveis ao impeachment da petista, como o senador Hélio José (PMDB-DF), tietaram o artista.

Na lista de convidados do PT havia ainda ex-ministros, dirigentes de partidos políticos aliados e de movimentos sociais e sindicalistas. Um ensaio de “Fora, Temer” foi feito, mas o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, proibiu manifestações.

Despedida. O clima naquela espécie de “camarote”, do lado dos convidados de Dilma, era de despedida do poder. “Se os senadores tivessem lido antes esse discurso dela, não haveria impeachment”, afirmou Lula a uma emissora de TV. Queria dizer o que sustentou em conversas reservadas: se Dilma tivesse feito mais política, não chegaria a esse fim. “Aqui ela falou o que tinha para falar”, resumiu o ex-presidente.

Nos bastidores, os petistas já traçavam cenários para o pós-Dilma e o modelo de oposição ao governo Michel Temer. Embora a largada para 2018 esteja dada, ninguém sabe se Lula – que está na mira da Operação Lava Jato – conseguirá concorrer novamente ao Palácio do Planalto. “O sucesso de Dilma é o meu sucesso e o fracasso dela é o meu fracasso”, costumava dizer o ex-presidente, na campanha da reeleição, em 2014, como se antevisse o futuro.

De forma discreta, o filho do último presidente destituído por um golpe de Estado acompanhou ontem o julgamento de Dilma. João Vicente, de 59 anos, primogênito de João Goulart (1961-1964), foi um dos poucos convidados da presidente a permanecer durante toda a sessão na galeria do Senado. “Vejo tudo isso com preocupação, como um retrocesso”, disse.

Cobrança. Embora em menor número, integrantes de grupos que defendem a cassação da presidente afastada também marcaram presença no Senado. Líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que organizou manifestações de rua contra o governo da petista, Kim Kataguiri e Fernando Holiday circularam pela Casa durante o dia, dando entrevistas e cobrando de senadores indecisos o voto pelo afastamento definitivo.

Deputados da base de apoio ao presidente em exercício Michel Temer também estiveram no Senado, como o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy (BA), Heráclito Fortes (PSB-PI) e Raquel Muniz (PSD-MG). A “invasão”, inclusive, rendeu reprimenda de Ricardo Lewandowski, que pediu aos deputados para abrirem espaço aos senadores.

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