'Cliente' de Lula, UNE resiste a pressão para declarar apoio a Dilma

Presidente da União Nacional dos Estudantes defende repasse de verbas e analisa governos Lula e Serra

Luís Fernando Bovo, do estadão.com.br

21 de abril de 2010 | 18h58

Na galeria de seus ex-presidentes, a União Nacional dos Estudantes (UNE) ostenta a foto do pré-candidato do PSDB José Serra. Entre 1963 e 1964, o tucano que vai disputar a sucessão de Lula comandou a entidade estudantil, partindo para o exílio enquanto estava no posto. Hoje, 46 anos depois e com R$ 10 milhões em verbas federais no cofre, a organização tenta conter a forte pressão para declarar apoio formal à Dilma Rousseff (PT), candidata de Lula e rival de Serra na corrida presidencial.

 

A maioria das correntes internas da UNE vai defender durante o 58º Conselho Nacional de Entidades Gerais (Coneg), que acontece no Rio entre quinta-feira, 22, e domingo, 25, o apoio declarado à Dilma. Resta saber se eles vão conseguir convencer os demais. "A minha opinião é que a UNE tem que manter uma postura de mais independência no pleito, sem declarar apoio formal a nenhum dos candidatos", diz o presidente, Augusto Chagas. A única vez em que a UNE declarou apoio formal a um candidato foi em 2002, no segundo turno, quando a entidade optou por Lula após um plebiscito.

 

Na entrevista a seguir, ele detalha a pressão que a UNE vem enfrentando, fala sobre os repasses federais, analisa o governo Lula ("políticas sociais têm se consolidado") e o governo Serra ("a relação que manteve com movimentos sociais foi trágica") e defende o controle social da mídia.

 

A UNE está avaliando a possibilidade de declarar apoio a um candidato nas eleições. Como está essa discussão?

É uma polêmica que sempre reaparece. O Coneg tem por objetivo justamente debater a postura que a UNE vai ter nas eleições. A nossa diretoria é muito plural. Se você pegar as quatro pré-candidaturas presidenciais, todas têm jovens representados na UNE. No Coneg, vamos identificar os temas que acreditamos que precisam ser debatidos na eleição. A polêmica que vai aparecer é o que fazer com esse programa. Tem algumas pessoas que vão defender que a UNE tem que declarar apoio a determinado candidato por acreditar que ele tem mais condições de implementar o programa proposto pelos estudantes. E tem outra opinião, que é a minha, que eu vou defender. Acho que a UNE tem que se manter neutra, numa postura de mais independência no pleito. Ao declarar apoio a um determinado candidato, todos esses outros dirigentes da organização que se identificam com outro postulante passam a interagir de maneira menos concreta com o dia a dia da entidade.

 

A pressão maior é pelo apoio a Dilma Rousseff?

Há muitas organizações que compõem a UNE e que defendem a candidatura de Dilma. A maioria das correntes que compõem a direção UNE está também na base do governo.

 

Você falou em independência. A UNE recebeu R$ 10 milhões em verbas federais nos últimos 5 anos. A independência não fica comprometida?

O que a UNE procurou fazer foi ocupar um espaço que foi aberto com a eleição do Lula. No período do governo FHC, a UNE tinha dificuldade de diálogo. Nunca havia sido recebida pelo ministro da Educação durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso. O que mudou foi o tratamento. Lula, pela sua trajetória, estilo e convicções, passou a ter a postura de estabelecer diálogo com alguns atores da sociedade. A UNE procurou legitimamente ocupar esse espaço. Nunca nos furtamos a apresentar limitações do governo, tanto em estrutura educacional como em outras áreas. A UNE sempre foi uma das grandes críticas à política econômica do governo. Fez passeatas e defendeu a demissão do presidente do Banco Central. Do ponto de vista de verbas, o que a UNE recebe são emendas parlamentares, a maioria relacionada à política cultural, e uma outra pequena parte de patrocínios de estatais. Apresentamos projeto de parcerias. É correto que os governos ajudem. Não há nada de ilegítimo e politicamente inaceitável nisso. Estamos tranquilos em relação a isso.

 

E o projeto que indeniza a UNE por conta da destruição de sua sede? Quanto a UNE pode receber com isso?

Estamos comemorando a aprovação, ontem (terça, 20), na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Agora vai para outra comissão, é o último passo. Vamos concretizar o sonho de reconstruir a sede. Temos um projeto do Oscar Niemeyer. A UNE trabalhou muito para que esse projeto fosse aprovado, conseguimos o apoio de todos os partidos. O valor está vinculado ao custo da obra. O teto é R$ 30 milhões. O projeto cria uma comissão para acompanhar o projeto.

 

Qual a sua avaliação do governo Lula?

Avaliamos que estamos vivendo um período de consolidação da democracia e das políticas sociais. A educação tem vivido um bom momento. Triplicamos o orçamento da área, triplicamos oferta de vagas nas universidades federais, voltamos a construir universidades. A autoridade do Brasil no mundo tem se ampliado. É significativo. Mas há coisas a serem feitas. O Brasil ainda tem nas suas politicas macroeconômicas muito conservadorismo. Há a questão do problema agrário, que não foi enfrentado. Não conseguimos alterar os índices de produtividade agrícola, que são de décadas atrás. É uma vergonha. Temos também o problema da juventude, do primeiro emprego, por exemplo.

 

E o governo Serra em São Paulo, como você avalia?

José Serra foi presidente da UNE, é uma figura que veio do movimento social. Recentemente ele deu uma declaração de que a UNE hoje é partidária. Ele foi infeliz, porque a UNE na época dele sempre teve organizações políticas à frente. Serra foi presidente da entidade por ter sido referência e liderança do movimento político que existia na organização. O problema são os interesses que Serra representa. Na atual realidade política brasileira, ele representa interesses da elite, do setor mais conservador da nossa sociedade. E isso acaba se manifestando no seu governo. É um governo que perdeu a oportunidade de ter um caminho mais democrático. Por exemplo, a relação que manteve e desenvolveu com movimentos sociais foi trágica. Veja o caso dos professores. O governo Serra tem a postura de não fazer questão de estabelecer diálogo. É uma cegueira que se estabelece. Acusar uma greve de professores, com salário-base entre R$ 780 e R$ 950, e dizer que eles não tem razão para reivindicar aumento é um absurdo.

 

Você acha que a manifestação dos professores em frente ao Palácio dos Bandeirantes foi um ato político?

Acho que não devemos adjetivar a questão de maneira negativa. Ainda bem que tem política nos professores, que eles têm motivação, que eles pensam e agem com convicção política. Não acho correto ter motivação partidária, eleitoral. Eles têm razão para apresentar reivindicações. O governo de São Paulo teve pouquíssima habilidade para tratar com o problema da greve. Teve uma postura de esmagar a greve. Eu estava no ato no palácio, estava na cena onde houve enfrentamento de manifestantes e policial. A reação da PM foi inacreditável. Não tinha razão para fazer aquilo. Quem construiu a confusão foi a polícia. A PM se aproveitou do empurra-empurra para iniciar uma pancadaria. Eu sei porque eu era o primeiro, estava ali, ia me incorporar na comissão de negociação. Tomei uma pancada no rosto, sai sangrando, perdi tênis, torci o tornozelo. Todo mundo teve que sair correndo, a polícia veio para encher de porrada. Foi uma postura lamentável.

 

No caso dos meios de comunicação, você acha que deve haver um conselho regulador?

Eu acho que precisamos ter controle social. É diferente de visões que defendem o controle governamental. Os meios de comunicação não podem ser tratados como uma atividade privada de qualquer tipo. A sociedade tem que ter ferramentas para fazer um controle da mídia.

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