Clésio Andrade: 'Não há hipótese de eu ir com Aécio contra Dilma'

Embora tenha sido vice-governador de Minas no primeiro mandato de Aécio Neves (PSDB), herdeiro da cadeira de Eliseu Resende diz que não se alinhará ao tucano

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2011 | 23h00

Herdeiro da cadeira de Eliseu Resende (DEM-MG), que morreu no último dia 2, Clésio Andrade (PR-MG) promete engrossar o bloco de apoio à presidente Dilma Rousseff no Senado. Embora tenha sido vice-governador de Minas no primeiro mandato de Aécio Neves (PSDB), Clésio, em entrevista ao Estado, deixa claro que não se alinhará ao tucano, frustrando os planos de uma futura bancada mineira exclusivamente oposicionista após a vitoriosa dobradinha do ex-governador e de Itamar Franco (PPS) nas urnas. "Não há hipótese nenhuma de eu caminhar com Aécio contra a presidente Dilma", diz, garantindo "apoio total" ao novo governo.

 

Empresário que fez fortuna no setor de transportes, Clésio costuma lembrar que começou a trabalhar aos 11 anos, como cobrador do ônibus que deu início à empresa do pai. Atualmente está à frente de diversos negócios e não se furta a elogiar o protagonista do escândalo do mensalão, Marcos Valério, seu ex-sócio na agência de publicidade SMPB. "Ele entrou nesse processo político de querer ajudar deputado e não soube como fazer. Eu digo que o Marcos Valério tem um coração muito bom."

 

O sr. assume o Senado com qual posicionamento em relação ao governo Dilma?

 

Apoio total. Sou da base aliada dela e a minha intenção é fortalecer sua posição lá, mas também sempre com forte preocupação com Minas Gerais.

 

Então sua ascensão frustra os planos do ex-governador e senador eleito Aécio Neves (PSDB) de liderar uma bancada de Minas no Senado unificada na oposição?

 

Isso está descartado. Não há hipótese nenhuma de eu caminhar com Aécio contra a presidente Dilma. É difícil considerar que sendo oposição vai se conseguir na pressão trazer investimentos para Minas. Até porque a presidente Dilma tem maioria folgada hoje e vai precisar negociar pouco com o Aécio. Como Aécio tem uma linha de oposição talvez mais preocupada com uma futura candidatura, nesse aspecto fica sim frustrada a posição dele.

 

Seu posicionamento não contraria a maior parte das lideranças e filiados do PR de Minas?

 

Quem apoiou a Dilma aqui foi o grupo de PR com mais força. Isso não significa que nossa bancada não esteja alinhada com o governo federal. Está sim alinhada. Mas é preciso separar as coisas, até pela própria força do mito. Na realidade, hoje o presidente não é o Lula, é a Dilma. O governador não é o Aécio, é o Anastasia. Não podemos deixar que os mitos continuem dominando os governantes, nem o Lula com a Dilma nem o Aécio com o Anastasia. O fato de o Aécio seguir uma posição e os interesses de Minas serem atendidos, seja através de mim, seja através dos deputados, seja através do contato do próprio governador Anastasia, é o que importa para Minas. Temos de ter essa preocupação, mas necessariamente não podemos todos ser arrastados pelo Aécio.

 

Ficou alguma mágoa por ter sido preterido na chapa que concorreu à reeleição? Antonio Anastasia (PSDB), que o substituiu na chapa, é hoje o governador.

 

Ficou a impressão de que eu fui preterido, mas eu vejo diferente. A primeira eleição foi uma composição política, do PFL (atual DEM) com o PSDB. Foi uma junção política sob a bênção do Itamar, que foi a pessoa que nos elegeu, temos de reconhecer isso. No outro mandato, era um governador extremamente popular, um mito que tinha todo o direito de fazer uma escolha pessoal, não uma composição política. O que o Aécio fez foi isso: uma escolha pessoal da intimidade, da proximidade dele. Acho que o Anastasia cumpriu bem esse papel. Entre uma composição política - vou usar uma expressão, mas não é pejorativa - e um empregado, o melhor é escolher um empregado.

 

Apoiaria no futuro um projeto presidencial do ex-governador?

 

Acho que o momento do Aécio passou. O Aécio seria o presidente da República hoje, não tenho dúvida. Fui um grande defensor disso, defensor ferrenho dele como terceira via, que deixasse o PSDB, fosse para outro partido. Então passou, acho que ele perdeu o momento e terá muitas dificuldades lá na frente. Acho que ele volta como governador.

 

Aécio se credencia como a grande liderança da oposição?

 

Primeiro ele tem superar os problemas dentro do PSDB, onde tem extrema dificuldade. Inegavelmente é o maior líder do PSDB, na minha visão, mas não é a visão que o PSDB tem. Ele tem de superar isso para depois ser o líder da oposição. Agora, oposição ferrenha, como foi, por exemplo, o Arthur Virgílio (PSDB-AM), não é o perfil do Aécio. Ele é mais conciliador. Por outro lado, muitas ideias que ele tem colocado podem ser aproveitadas, podem ser positivas para o País. Mas terá de enfrentar muitas dificuldades.

 

O PR foi devidamente contemplado no ministério Dilma?

 

O PR foi, acho que Minas é que não foi. Agora é pensar no segundo escalão, mas é aquela história, na realidade ela considera que Minas já tem a Presidência. Se ela trouxer os investimentos que precisamos, talvez seja melhor do que ter ministério.

 

Como vê a disputa entre PT e PMDB pelos cargos federais?

 

É uma disputa natural, uma disputa por espaço. O PMDB considera que perdeu espaço e está tentando recuperar no segundo escalão. O PT, é aquela história, quer ser efetivamente governo e está parecendo que no governo Dilma será mais do que foi no governo Lula - que sempre foi acima do PT. A Dilma vem dos quadros do PT. O PT crescendo no governo da Dilma é natural e é melhor para ela também. Ela terá de saber como conduzir isso e fazer algumas compensações para o PMDB.

 

O sr. é réu em processo na Justiça estadual relativo ao chamado mensalão mineiro, suposto esquema de desvio de recursos públicos na campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998. Ao assumir como senador, vai reivindicar tramitação no STF por causa do foro privilegiado?

 

Não, de forma alguma. Não vou fazer nenhuma reivindicação porque estou absolutamente tranquilo com relação a esse processo. Foi uma campanha na qual eu era candidato a vice-governador, não tinha controle sobre a máquina pública, não era coordenador de despesas, não tinha domínio sobre elas, era candidato a vice na chapa do Azeredo, que era o governador.

 

Qual sua relação com o empresário Marcos Valério, do qual chegou a ser sócio?

 

Em 1995 a SMPB estava em processo de falência e eu estava caminhando na lagoa (da Pampulha) quando o Marcos Valério passou, me parou e falou: "Você que é o empresário que gosta de consertar empresas, tem uma empresa assim... vamos conversar sobre isso?" Eu falei: "Vamos." Coincidentemente, depois eu acabei entrando na sociedade da SMPB e por coisa do destino eu que obriguei o Marcos Valério a entrar. Deixei a sociedade em 1998.

 

Mantém alguma relação com ele ainda hoje?

 

Não, mas também não tenho nada contra. Acho que o Marcos Valério é uma pessoa extremamente atenciosa, que sempre quer servir e ajudar as pessoas. Acho que ele caiu muito nisso, sabe? Ele entrou nesse processo político de querer ajudar deputado e não soube como fazer. Eu digo que o Marcos Valério tem um coração muito bom.

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