Claudio Lembo diz que é um político sem carisma

Em três décadas de vida pública, o vice-governador Claudio Lembo (PFL-SP) só perdeu o controle por três vezes. Na primeira, desligou o telefone com força. Na segunda, bateu na mesa e derrubou três quadros na parede. Na última, expulsou da sala um grupo que - segundo explicou depois - lhe faltou com o respeito. Em todos os outros momentos da carreira, Lembo permaneceu impassível - exatamente como no dia em que recebeu a notícia que, a partir de hoje, será o 31º governador de São Paulo. Sentado em seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes, manteve agenda inalterada enquanto o PSDB anunciava a candidatura do governador Geraldo Alckmin à Presidência. A quem perguntava que marca quer imprimir no governo, respondeu: ?Vamos ser francos, em nove meses não dá para imprimir marca pessoal.? E a quem indagou se está no auge da carreira, saiu-se com essa: ?No momento da vida em que estou, não existe auge!?O governador tem 71 anos, é casado com dona Renéa e reúne as características de político da direita católica. É discreto, cultiva hábitos rígidos, se veste de forma austera, tem ironia fina que costuma arrancar risadas até de adversários, devora livros sobre doutrina, é homem de bastidores - e especialista em sobrevivência política. ?Eu acho que sou assim: um político que sabe que não tem carisma, mas que tem senso de dever público. São Paulo não terá surpresas nesses nove meses?.O traço mais marcante de Lembo é sua coleção de costumes, a maioria com origem em algum ponto de seu histórico familiar ou da infância pobre. Ele jamais deixa comida do prato (?minha mãe proibia?, explica), não compra calças para usar fora de compromissos profissionais (?calça esporte é calça velha!?), janta sopa (?não tinha outra opção?) e, até pouco tempo, evitava riscar livros (?meu pai dizia: não rabisca, porque a gente pode precisar vender depois?). Hoje, tem patrimônio de R$ 12,5 milhões - mas mantém manias dos tempos difíceis. Há décadas, leva para seus gabinetes uma cadeira de madeira de linhas retas, que seu pai - o mestre-de-obras Leonino, que se casou com a costureira Rosa - usava para tocar violino. É dela que vai comandar o Estado. Outro costume: desde 1999, só usa gravatas pretas, para lembrar a morte do filho Cláudio Salvador. A trajetória política de Lembo começou em 1974, quando ele foi chamado pelo ex-prefeito Olavo Setúbal - dono do Banco Itaú, com quem já trabalhava desde 1959 - para assumir a Secretaria de Negócios Extraordinários. Ele diz que nunca houve planejamento no que ocorreu depois. ?O meu carisma político é o acaso?, diz. E recita sua biografia política, inclusive disputas onde já entrou perdendo. ?Em 1974, ninguém queria ser presidente da Arena. Eu aceitei. Foi acaso. Em 1978, ninguém quis ser candidato ao Senado porque o concorrente, Franco Montoro, tinha prestígio notável. Eu fui. Outro acaso. Depois o Jânio Quadros me levou para ser secretário dos Negócios Jurídicos. Acaso! Aí fui candidato a vice de Aureliano Chaves, em campanha miserável. E o PFL me indicou vice do Geraldo. Tem algum roteiro nisso??

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