Classe média põe dinheiro em segurança privada

A classe média dos centros urbanos brasileiros, transformada há pelo menos três anos na maior vítima das quadrilhas criminosas, começa a ser responsável pelas principais injeções de crescimento real do milionário negócio da segurança privada. "Há uma migração da criminalidade em direção à classe média, detectada fortemente no final da década de 90 e que deve acentuar-se nos próximos anos", avalia Vagner D´Angelo, diretor para o Brasil da Kroll, uma das principais empresas mundiais de gerenciamento de riscos. José Jacobson Neto, presidente do Sindicato das Empresas de Segurança Privada e Eletrônica do Estado de São Paulo (Sesvest), estima que o setor de segurança pessoal, com alvo principalmente na proteção à classe média, deve manter neste ano as mesmas taxas de crescimento registradas no ano passado. Entre 2000 e 2001, esse nicho do mercado das empresas de vigilância cresceu 15% ? contra apenas 5% da vigilância patrimonial e 10% das escoltas ? uma fatia considerável dos R$ 7,8 bilhões movimentados pelo setor no ano passado. Jacobson estima que, em 2002, as 1.300 empresas do setor ? 300 delas instaladas no Estado de São Paulo ? deverão movimentar R$ 8,2 bilhões. "O nicho da segurança pessoal cresce na mesma medida em que crescem os índices de seqüestros de pessoas comuns, os assaltos armados a residências e estabelecimentos comerciais médios", acentua ele. As empresas de segurança eletrônica, atentas à tendência, se preparam para despejar no mercado brasileiro equipamentos sofisticados de vigilância adaptados às necessidades e bolso da classe média. Em 2000, o setor movimentou mais de R$ 1,2 bilhão. Os dados de 2001 estão em fase final de tabulação na Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese). Nos últimos cinco anos, o setor de vigilância eletrônica cresceu cerca de 20% ao ano, e a estimativa é que estes índices permaneçam até, pelo menos, a metade da década, segundo avaliação de José Roberto Sevieri, diretor da International Security Fair, a Exposec, a maior feira de equipamentos de segurança eletrônica da América Latina e uma das cinco maiores do mundo, que se realiza anualmente, em novembro, em São Paulo. Os campeões de vendas no setor, segundo o presidente da Abese, Fabrício de Araújo Sacchi, são os equipamentos de circuito fechado de televisão e os sistemas eletrônicos de alarme, com serviços de monitoramento remoto. Este ano, segundo ele, devem chegar ao mercado brasileiro equipamentos sofisticados desenvolvidos por grandes empresas norte-americanas para estes segmentos do setor. A Associação Brasileira de Empresas de Segurança e Vigilância (Abrevis) estima que existe, no Brasil, um mercado potencial de cerca 3 milhões de imóveis para o segmento de segurança eletrônica. Em apenas três anos, entre 1998 e 2001, este mercado saltou de 115 mil imóveis com equipamentos de segurança eletrônica para 170 mil. De acordo com o pesquisador Ibe Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o gasto com segurança privada saltou do equivalente a 5% do PIB ? cerca de R$ 35 bilhões ?, em 1995, para mais de 10% do PIB ? R$ 112 bilhões ? no ano passado. "O Brasil vive uma endemia de violência, que expõe todos os setores da sociedade. Mas segurança privada não resolve o problema, é apenas um paliativo", argumenta ele. Classe média na mira O deslocamento da classe média para o centro da mira do crime é resultado de um movimento que os especialistas já detectavam desde o início da década de 90. "Trata-se de um processo natural, semelhante ao detectado historicamente nos Estados Unidos e em países da Europa", afirma D´Angelo. No início dos anos 90, as instituições financeiras eram os principais alvos dos criminosos. Mas investimentos pesados em equipamentos e contingentes de segurança privada tornaram cada vez mais inexpugnáveis os cofres e caixas dos bancos. Com a redução dos assaltos a bancos, os caminhões de carga e as grandes companhias passaram a ser as principais vítimas das quadrilhas. A partir de 95, grandes companhias investiram pesado em sistemas de segurança privada. A vulnerabilidade dos caminhões de carga também declinou, a partir de 97, com a instalação no Brasil das empresas de detecção por satélite de automóveis roubados. "A partir do ano passado, com a CPI do Roubo de Cargas e a ação das empresas, das associações de transportadoras, das autoridades e das polícias, o roubo de cargas começou a sofrer baixas realmente pesadas", avalia D´Angelo. Exatamente a partir deste momento, as quadrilhas se voltaram para alvos da classe média ? como os condomínios residenciais e comerciais, no caso das quadrilhas mais sofisticadas; e residências e seqüestros relâmpago, no caso do bandido comum. D´Angelo, que há três anos pesquisa dados numéricos sobre a migração da criminalidade no Brasil, lembra o exemplo recente da região de Campinas (SP). "A passagem da CPI do Narcotráfico desmontou as principais cabeças do crime organizado na região, a partir de 99", avalia ele. "No ano seguinte, os casos de seqüestros cresceram mais de 200%." Análises sobre a natureza e origem das quadrilhas revelaram que eram compostas por aqueles que ele chama de "soldados rasos" do crime organizado. "Quando perderam o comando, passaram a agir a esmo, em busca de alvos frágeis", afirma D´Angelo. Custo da segurança privada Um projeto básico de segurança privada pode variar de coloquiais R$ 3 mil, referentes à instalação de um bom alarme residencial com sensores de presença e controle remoto, até R$ 218 mil estimados apenas para aquisição de equipamentos de proteção utilizados nos esquemas de segurança individual de nível avançado. Neste último caso, o custo mensal de manutenção dos equipamentos e das equipes de segurança chega a atingir cerca de R$ 30 mil. As empresas especializadas dividem em três níveis ? básico, intermediário e avançado ? os projetos de segurança individual. Os projetos de nível básico, utilizados por gerentes de alta gestão, diretores de multinacionais ou grandes empresas nacionais, pequenos empresários e profissionais liberais de renome, chegam a custar R$ 110 mil, com custo mensal de manutenção de cerca de R$ 350. O equipamento mais caro para o nível básico é o veículo com blindagem básica, que garante segurança em deslocamentos urbanos ? avaliado em R$ 60 mil. O projeto envolve ainda câmaras de monitoramento residencial, alarmes com sensores, sistema de rastreamento de automóvel por satélite e portões automáticos, entre outros itens. O nível intermediário, normalmente utilizado por empresários médios e grandes, presidentes e vice-presidentes de multinacionais, esportistas e artistas de renome, envolve os mesmos equipamentos do nível básico e os mesmos custos mensais, acrescidos de cerca de R$ 6 mil mensais referentes ao custo de agentes trabalhando 12 horas por dia na proteção de todos os membros da família. No projeto de nível avançado, usualmente contratado por chefes de Estado, megaempresários, presidentes mundiais de grandes corporações e esportistas e artistas de renome internacional, o custo de manutenção mensal chega a atingir R$ 30 mil, com a contratação de equipes com gerente especial de segurança e carro com blindagem completa, que tem o custo de instalação avaliado em R$ 80 mil. Os equipamentos chegam a custar R$ 218 mil. Os projetos de proteção patrimonial, utilizados por empresas e instituições financeiras, também são catalogados em três níveis, mas o custo é praticamente impossível de ser catalogado. "O custo só pode ser dado a partir da análise de cada caso", afirma Vagner D´Angelo, diretor da Kroll para o Brasil. Em média, os projetos de nível 1, para pequenas metalúrgicas e gráficas de médio porte, entre outras, chegam a ter um custo de instalação de R$ 70 mil, mas o custo mensal de manutenção pode variar de R$ 6 mil a R$ 15 mil. Os de nível 2, utilizados por empresas de médio porte com plantas industriais ou comerciais distribuídas em diferentes regiões ? redes de lojas, supermercados e fábricas de autopeças, entre outras ? têm um custo de implantação de cerca de R$ 90 mil por planta, com área média de 10 a 20 mil metros quadrados, e um custo de manutenção mensal de até R$ 40 mil mensais. Por fim, os custos de implantação de sistemas de segurança de nível 3, podem atingir até alguns milhões de reais, como é o caso das grandes redes de supermercados e bancos. Um banco, com 100 agências espalhadas pelo país, investe cerca de R$ 8 milhões só com implantação dos sistemas básicos de segurança. A manutenção mensal chega a custar mais de R$ 1 milhão, com a mão de obra básica e a gerência avançada. Nos grandes edifícios das megacorporações, os equipamentos de segurança chegam a custar R$ 500 mil, com custos de manutenção de cerca de R$ 180 mil mensais.

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