Cirurgiões plásticos atendem a mais vítimas de violência

O crescimento da violência no País tem reflexos na atividade dos cirurgiões plásticos. Até 1994, em cada grupo de 10 pessoas que procuravam esse tipo de profissional, duas precisavam submeter-se a operações reparadoras. Desde o ano passado, metade das cirurgias plásticas é reparadora. O tema será discutido a partir de amanhã na 22.ª Jornada Carioca de Cirurgia Plástica, no Hotel Sofitel. O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Luiz Carlos Garcia, identificou ainda que as lesões têm perfis diferentes, dependendo do Estado em que o paciente foi vítima da violência. Em São Paulo, a maior parte dos casos é de ferimentos e mutilações por faca. São pessoas assaltadas na rua, nos sinais de trânsito. No Rio de Janeiro, os ferimentos, em sua maioria, são por arma de fogo. "A violência tem alto custo social. É detestável sofrer uma mutilação porque não há segurança nas ruas. A pessoa pára de trabalhar, deixa de produzir?. O cirurgião Juarez Avelar, maior especialista em reconstrução de orelhas do País, foi um dos médicos que percebeu o aumento da violência, a partir dos pacientes que chegaram ao seu consultório no ano passado. Além dos casos congênitos a que o médico está acostumado a tratar, Avelar atendeu oito pessoas que tiveram a orelha arrancada em seqüestros e assaltos. Num dos casos, a vítima de um seqüestro perdeu essa parte do corpo a mordidas. Eram pacientes do Rio, São Paulo, Brasília e até da Argentina. "A mutilação deixa seqüelas físicas e psicológicas. Cada vez que a pessoa vê o defeito no espelho, ela revive o trauma. A cirurgia, nessses casos, também tem efeito de reparação psicológica", acredita Avelar. Mas não é somente a violência urbana que preocupa os cirurgiões plásticos. A violência doméstica também assusta. Nesses casos, as mulheres são as maiores vítimas, agredidas com socos, facadas, e golpes com objetos. "As lesões costumam ser no rosto, como fratura de nariz e malar (osso abaixo do olho)", diz Garcia. De acordo com a análise do presidente da SBCP, o número de feridos em acidentes de automóveis que procuram a cirurgia plástica diminuiu. "Para o cirurgião plástico não há mais tanta incidência de acidentados no trânsito. O air-bag e o cinto de segurança fizeram diminuir os casos que chegavam a nós", afirma. As batidas costumavam provocar sérias lesões de face, quando a vítima chocava a cabeça contra o pára-brisa. Garcia explica que as cirurgias reconstrutoras não são apenas aquelas que tratam de vítimas da violência urbana, doméstica e do trânsito, mas também de queimados e portadores de doenças congênitas. Esses casos também fazem parte do levantamento da SBCP, que informa que o número de cirurgias reparadoras e estéticas igualou-se, mas tem pouca expressão. Atualmente, o ranking das causas das cirurgias plásticas reconstrutoras é encabeçado pelas violências urbana e doméstica, seguido por queimados, acidente de trânsito e doenças congênitas.

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