Ciro veste figurino de ‘anti-Lula’ e é cortejado pela cúpula do DEM para aliança em 2022

Na tentativa de atrair o ‘centro expandido’, pré-candidato do PDT ajusta estilo, se aproxima de liberais e acusa PT de manter ‘gabinete do ódio’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2021 | 15h42

Caro leitor,

O duelo entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) é o mais novo capítulo da disputa pelo apoio do “centro expandido” nos bastidores da campanha antecipada ao Palácio do Planalto. Convencido de que o presidente Jair Bolsonaro não chegará ao segundo turno da eleição de 2022, Ciro vestiu o figurino de “anti-Lula” e tem sido cortejado pelo presidente do DEM, ACM Neto.

Nesse divórcio litigioso, o desafio do pré-candidato do PDT é não destruir pontes com o campo da esquerda, não ceder demais ao outro lado nem parecer artificial ao tentar se equilibrar em um estilo “paz e amor”, moldado pelo marqueteiro João Santana.

Ex-ministro da Integração Nacional de 2003 a 2006, no primeiro mandato de Lula, Ciro voltou a fustigar o petista nesta quinta-feira, 20, um dia depois de ter trocado farpas com ele nas redes sociais.

“Ele (Lula) é o bonzinho e manda o círculo de bajuladores e o gabinete do ódio, financiado com dinheiro sujo até hoje, insultar, agredir, depreciar os adversários”, disse Ciro, em entrevista à Rádio Charrua, de Uruguaiana (RS). “Ele (diz) ‘eu gostaria de ser amigo, eu sou o Lulinha paz e amor. Isso tudo, para quem não conhece, vai sendo enganado. Mas eu conheço o Lula há 40 anos (...) Então, tem um certo momento em que há um limite”.

O novo capítulo da briga ocorreu depois que Ciro chamou Lula de “o maior corruptor da história brasileira”, em entrevista ao jornal Valor Econômico. “Eu adoraria dizer que o Ciro é um amigo. Mas infelizmente ele não quer. Mas eu aprendi uma teoria com a minha mãe Dona Lindu: quando um não quer, dois não brigam. Não farei jogo rasteiro”, escreveu o petista no Twitter, nesta quarta-feira, 19.

A partir daí seguiu-se um embate virtual, que escancarou a “amizade” destruída, e foi retomado nesta quinta-feira por Ciro. O pré-candidato do PDT chamou Lula para o duelo, sob o argumento de que é necessário “debater o Brasil”, e não “afetos pessoais”. O ex-presidente permaneceu em silêncio. A ordem da cúpula do PT, por enquanto, é deixar Ciro falando sozinho.

Para o presidente do PDT, Carlos Lupi, a chance de um segundo turno entre Ciro e Lula é grande. “Tem um governo derretendo. Bolsonaro é um boneco de neve, não aguenta sol”, disse ele ao Estadão. Mas Ciro vai conseguir domar o temperamento explosivo para adotar o estilo paz e amor?

“Isso é impossível”, respondeu Lupi, rindo. “Ele quer amadurecer sua rebeldia juvenil, sem perder a indignação”.

Lupi tem esperança em uma aliança com o DEM, embora o partido de ACM Neto esteja dividido – uma ala pende para o bolsonarismo, outra prega a independência na montagem dos palanques estaduais e há quem defenda a reaproximação com o PSDB.

Na atual temporada de separações, ACM Neto também rompeu com o governador de São Paulo, João Doria, que tirou o vice Rodrigo Garcia do DEM para filiá-lo ao PSDB. “Acabou de implodir qualquer chance de ter o DEM com ele”, afirmou o ex-prefeito de Salvador, numa referência à eleição presidencial de 2022.

Pior de tudo é que a ameaça de debandada após o ruidoso confronto de Neto com o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, para quem o antigo parceiro virou um “malandro baiano”, não dá sinais de trégua. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou a filiação ao PSD de Gilberto Kassab. O mesmo destino deve ser seguido por Maia, que pediu desligamento do DEM ao Tribunal Superior Eleitoral, alegando justa causa para não perder o mandato. É provável, porém, que ele seja expulso do partido antes disso.

Até agora, as conversas de Ciro com ACM Neto têm sido sobre palanques para 2022, embora uma ala do DEM, principalmente a liderada por evangélicos, não aceite essa união estável de jeito nenhum. O partido tem o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta como pré-candidato à cadeira de Bolsonaro e há quem queira lançar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Em março, Ciro foi o anfitrião de um encontro com Lupi e ACM Neto, em Fortaleza. Na reunião foi discutida a possibilidade de casamento de papel passado, desde que Ciro ofereça um dote mais palatável em seu programa, sem tanta presença do Estado na economia. Mandetta já avisou que pode abrir mão da cabeça de chapa, em nome de um acordo maior, mas esse martelo ainda não foi batido.

O PDT é aliado do DEM em Salvador, vai apoiar a candidatura de Neto ao governo da Bahia, e também está na base de sustentação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM).  “O aparecimento do profeta da ignorância, ocupando o espaço da direita raivosa, deslocou o DEM mais para o centro”, observou Lupi, numa alusão a Bolsonaro. “Existe uma relação de respeito de lado a lado e eu admiro Ciro. Temos um bom diálogo com o PDT, que não é apenas na Bahia. Em diversos Estados esse diálogo se reproduz”, emendou Neto.

Diante de tantos divórcios, no entanto, o presidente do DEM faz mistério sobre o namoro. “Os caminhos serão construídos no momento certo”, desconversa. Enquanto isso, uma CPI da Covid empareda Bolsonaro e Lula vai “pescando” partidos do Centrão  para sua aliança. Coisas da política.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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