FOTO GABRIELA BILÓ / ESTADÃO
FOTO GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

Sob desconfiança dos militares, Ciro Nogueira é quarta tentativa de Bolsonaro para Casa Civil

Chegada de senador presidente do Progressistas à Esplanada marca avanço do Centrão no governo Bolsonaro

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 09h50
Atualizado 27 de julho de 2021 | 14h09

O senador Ciro Nogueira (PI) é o novo ministro da Casa Civil. Presidente do Progressistas, Nogueira se reuniu na manhã desta terça-feira, 27, com o presidente Jair Bolsonaro e aceitou convite para integrar a pasta que coordena todos os ministérios e é responsável pela articulação política do Palácio do Planalto com o Congresso.

A entrada de Nogueira na equipe significa levar o Centrão para o núcleo duro do governo, uma vez que o senador é um dos principais líderes do grupo, ao lado do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL). A estratégia contradiz todas as afirmações de Bolsonaro contra a velha política e o toma-lá, dá cá.

O novo ministro substitui o general Luiz Eduardo Ramos, que foi deslocado para a Secretaria-Geral da Presidência. Na dança das cadeiras, Onyx Lorenzoni – antes na Secretaria-Geral – comandará agora Emprego e Previdência, que será criado com o desmembramento de funções sob hoje sob o guarda do Ministério da Economia. Na prática, Nogueira assume sob a desconfiança da ala militar do governo, que vem perdendo poder. Ao Estadão, Ramos chegou a dizer, na semana passada, que havia sido “atropelado por um trem” ao saber da troca na Casa Civil.

O Estadão apurou que o general tentou evitar até o último momento a substituição. Na tentativa de mostrar que não há queda de braço, porém, Ramos tirou foto, nesta terça-feira, ao lado de Bolsonaro, Nogueira, Lira e dos ministros Fábio Faria (Comunicações) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo).

Sob pressão da CPI da Covid e desgastado com a perda crescente de popularidade, refletida em  protestos de rua, Bolsonaro decidiu levar o Centrão para o coração do governo e fazer a quarta aposta na Casa Civil – que antes foi ocupada por Onyx, Braga Netto e por Ramos – com o objetivo de barrar o impeachment e construir sua campanha à reeleição, em 2022.

Com o movimento, o presidente contemplou o Senado – que até então não tinha cargos no ministério – casou de papel passado com o Centrão e ainda puxou para a equipe um político que, além de muito experiente, tem o pé no Nordeste. É exatamente nesta região que Bolsonaro precisa conquistar apoio para enfrentar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que hoje lidera as pesquisas de intenção de voto.

"Acabo de aceitar o honroso convite para assumir a chefia da Casa Civil, feito pelo presidente Jair Bolsonaro. Peço a proteção de Deus para cumprir esse desafio da melhor forma que eu puder, com empenho e dedicação em busca do equilíbrio e dos avanços de que nosso país necessita", escreveu Nogueira no Twitter. Na prática, a mudança na Casa Civil já havia sido decidida por Bolsonaro na semana passada, mas só foi oficializada nesta terça-feira porque o senador estava no México.   

Na campanha de 2018, Bolsonaro fazia críticas contundentes à velha política, acusava o PT de fisiologismo e prometia jamais lotear o governo. Em convenção do PSL realizada em julho daquele ano, o general Augusto Heleno Ribeiro, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chegou a cantarolar uma música trocando o termo “ladrão” por “Centrão”. “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, cantou o general, mudando verso da letra de “Reunião de Bacanas”.

À época o PSL era a sigla de Bolsonaro, que hoje está sem partido e pode até mesmo migrar para o Progressistas. O presidente também já foi do PP comandado por Nogueira. “Eu sou do Centrão”, disse ele no sábado, na esteira de críticas à contradição entre seu discurso e a prática, nas redes sociais. “Eu nasci de lá”.

Com a reforma na equipe, o presidente também aumenta o número de partidos para 24.  Sua plataforma de governo previa a redução de pastas. “Um número elevado de ministérios é ineficiente, não atendendo os legítimos interesses da Nação. O quadro atual deve ser visto como o resultado da forma perniciosa e corrupta de se fazer política nas últimas décadas, caracterizada pelo loteamento do Estado, o popular ‘toma lá-dá cá’”,  dizia programa que elegeu Bolsonaro, há três anos.

As trocas ministeriais serão publicadas no Diário Oficial da União e a criação da nova pasta de Emprego e Previdência ocorrerá por meio de uma medida provisória, que precisa ser confirmada pelo Congresso em até quatro meses.

O novo ministro da Casa Civil responde a cinco processos na Justiça. Entre eles estão inquéritos que investigam propina recebida da Odebrecht e da JBS.

Nogueira exerce influência no governo desde meados de 2020 e tem um ex-assessor no comando de um órgão bilionário do Ministério da Educação, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Com Nogueira na Casa Civil serão quatro os ministérios ocupados por partidos que integram o Centrão. O bloco também tem os deputados João Roma (Republicanos-BA) na Cidadania, Fábio Faria (PSD-RN) nas Comunicações e Flávia Arruda (PL-DF) na Secretaria de Governo. Faria já anunciou a saída do PSD e está de malas prontas para o Progressistas.

Sem legenda desde 2019, Bolsonaro tem citado o Progressistas como opção de partido para concorrer à reeleição em 2022. Além do novo ministro da Casa Civil, a sigla também conta com Arthur Lira no comando da Câmara e com a liderança do governo na Casa, com com Ricardo Barros (PR), alvo da CPI da Covid.

Até agora, Lira segurou todos os pedidos de impeachment de Bolsonaro e fez avançar uma proposta de emenda constitucional (PEC) que institui o semipresidencialismo no Brasil. “O Brasil não pode sofrer de instabilidade política a cada presidente que é eleito”, afirmou o presidente da Câmara, recentemente. “Nós não podemos ter uma mudança nesses rumos políticos. As eleições são feitas de quatro em quatro anos para a gente escolher o presidente.”

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