Ciro adota discurso de rebelde com causa e Lula tenta atrair Marina

PDT oficializa nesta sexta-feira candidatura de ex-ministro, que vai atacar desgoverno e polarização, enquanto PT foca em agenda ambiental

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 17h02

Caro leitor,

Com dificuldade para decolar na campanha, o ex-ministro Ciro Gomes lançará sua pré-candidatura à Presidência da República pelo PDT, nesta sexta-feira, 21, disposto a  transformar o que é visto como defeito em qualidade. O estilo explosivo virou “rebeldia”, palavra que dará a tônica do ato político. O discurso de Ciro marcará a nova etapa desta temporada, definida nos bastidores como a da rebeldia com causa.

No pronunciamento, o ex-ministro dirá que é necessário ser rebelde para enfrentar o desgoverno de Jair Bolsonaro, lutar contra quem não aceita a ciência e para mudar o quadro de polarização entre o atual inquilino do Palácio do Planalto e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Criado pelo publicitário João Santana, o slogan “A rebeldia da esperança” já vem sendo criticado no mercado da política por lembrar o livro A audácia da esperança, do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama.  A estratégia que apresenta Ciro como um candidato inconformado com o sistema foi construída com base em pesquisas qualitativas, que a nove meses da eleição captaram sentimentos de desencanto e falta de alternativas, principalmente entre os jovens.

A ideia é atrair esse público para a campanha de Ciro, hoje “espremida” no pelotão da terceira via. Em sua quarta tentativa de chegar ao Planalto, o homem que já foi ministro nos governos de Itamar Franco e de Lula, prefeito de Fortaleza, governador e secretário de Saúde do Ceará, além de deputado federal e estadual, quer se mostrar como  opção a “tudo o que está aí”. Assim, ao mesmo tempo em que procura se aproximar cada vez mais do centro no espectro político, Ciro joga iscas na direção da esquerda não-lulista.

O problema é que no próprio PDT há um movimento para que o ex-ministro desista. Integrantes da bancada federal pedem que o partido não tenha candidato próprio e use o dinheiro do fundo eleitoral para investir no aumento das cadeiras na Câmara. Não é só: deputados estabeleceram prazo até março para Ciro sair das cordas. Caso contrário, ameaçam abandoná-lo. Alguns até dizem que deixarão o PDT, aproveitando a “janela partidária” daquele mês, quando podem trocar de sigla sem perder o mandato.

Marina Silva e uma parte da Rede, por sua vez, querem apoiar Ciro, mas também observam os próximos capítulos da rebeldia para decidir seus passos.  Como se sabe, Marina não pode nem ver João Santana, que hoje é marqueteiro de Ciro, mas produziu os ataques mais virulentos contra ela quando assinou a campanha de Dilma Rousseff ao segundo mandato, em 2014.

Enquanto isso, Lula tenta reconquistar Marina, que foi ministra do Meio Ambiente e rompeu com o PT em 2009, após quase trinta anos de filiação. Para atrair esse apoio, o ex-presidente usa como chamariz a promessa de apresentar um programa de governo que dará prioridade à questão ambiental. Lula tem dito que não quer transformar a Amazônia num  “santuário da humanidade”, mas, sim, explorar cientificamente as riquezas contidas na biodiversidade da floresta. Trata-se de um discurso que soa como música para a ex-ministra.

“A Marina é uma referência internacional e é importante que venha conosco”, disse o secretário de Comunicação do PT, Jilmar Tatto. “Ela é fundamental para ajudar no processo de reconstrução do País e na luta do meio ambiente, tanto aqui como no exterior.”

A Rede, porém, está rachada. De um lado, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) defende a aliança com Lula. De outro, Marina, a ex-senadora Heloísa Helena e outros ex-petistas abrigados na Rede pregam a adesão à campanha de Ciro. Heloísa Helena foi expulsa do PT em 2003 por ser contra a reforma da Previdência apresentada no primeiro mandato de Lula.

A perspectiva de Marina ser candidata a vice na chapa liderada por Ciro já foi batizada no PDT como “Cirina”. Até agora, porém, as negociações não avançaram. Na prática, a Rede precisa do guarda-chuva de uma federação com outros partidos para sobreviver à cláusula de desempenho, mas também está negociando com o PSOL.

Nesta temporada de rebeldia, Cabo Daciolo vai se filiar ao PDT e declarar apoio a Ciro. Detalhe: na disputa presidencial de 2018, o candidato nanico – então no Patriota – ficou à frente de nomes tarimbados, como Marina e Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda.

Com uma Bíblia na mão, o pastor Daciolo desistiu de se lançar novamente ao Planalto, mas continua querendo expulsar o demônio da Praça dos Três Poderes. Glória a Deus!

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.