Circo Garcia, o fim de uma era

O empresário Beto Carrero resumiu sentimentos ao falar do fechamento do Circo Garcia, anunciado na semana passada, por problemas financeiros. "Estamos de luto." O sentimento de perda é compartilhado pelos palhaços Waldemar Seyssel, o Arrelia, e Roger Avanzi, o Picolino, e se estende aos cerca de 60 funcionários. Perda por tantos anos e tantos feitos. Grande parte dos 350 animais que deram início ao Parque Zoológico de São Paulo, em 1958, foi doada ou alugada pelo circo. No exterior, o Garcia, que viajou por 72 países, assumia o nome de Circo Brasil, para marcar a tradição circense do País, a exemplo do Cirque du Soleil, do Canadá, e do Circo de Moscou. O tom de lamentação também virou tônica nas declarações do veterano palhaço Arrelia, hoje com 97 anos. Surdo, ele vive no Rio ao lado da mulher, Arlete, e considerou a perda irreparável. Arlete teve de "traduzir" suas palavras. O velho palhaço se expressa com dificuldade. "Os Garcias são uma das famílias mais tradicionais do circo. Lamento por todos que faziam aquele grande espetáculo e queria aproveitar para mandar um abraço afetuoso aos meus velhos companheiros, com a certeza de que ainda vão se reerguer", disse o artista. Emocionado, Picolino, de 80 anos, cuja mulher, Anita, é filha de Agenor Garcia, membro da família fundadora, quase não encontrou palavras para demonstrar a tristeza. "Gostaria de ainda ter forças para, mais uma vez, ajudar a levantar o Garcia. Na verdade, falta ajuda do governo para esse tipo de espetáculo, que encareceu muito para os empresários", disse. A mulher, também de 80 anos, ficou doente com a perda do circo. Picolino trabalhou sete anos no circo, ao lado de Agenor, em uma época em que o espetáculo enfrentava grandes dificuldades, contornadas quando começou a fazer comédias. Dono do Circo Di Napolli, o empresário Hugo Gelli, comparou a perda do Garcia a um crime contra a memória. "O circo é um patrimônio histórico nacional que não pode acabar." No exterior, artistas também manifestaram tristeza pelo fechamento. Segundo Beto Carrero, amigos telefonaram para obter mais informações. O fim do Garcia, para o presidente da Associação Brasileira de Circo (Abac), José Wilson Moura Leite, representa o fim de uma era. "O circo tradicional parou no tempo, enquanto a versão moderna está em evidência", explicou Leite, também diretor do Circo-Escola Picadeiro. "Filhos" - Dona de duas elefantas - Rangun e Serva, ambas com 40 anos -, 23 chimpanzés e 4 tigres, a proprietária do Garcia, Carola Boets, de 65 anos, recebe as pessoas que visitam o circo apresentando o "bisneto", o bebê chimpanzé Lucas, de 4 meses. "Não vou me desfazer deles. Como posso vender os meus filhos?" Carola deu continuidade ao trabalho depois da morte de Antolin Garcia, em 1983. Brasileiro de origem espanhola, que fundou o circo em 1928, ele deixou de ser alfaiate para seguir os passos da companhia do ator Benjamin de Oliveira. Os animais ficarão no terreno alugado na Estrada do M´Boi Mirim, no Campo Limpo, zona sul, até que todos os funcionários comecem a trabalhar. "Os cavalos já foram doados para um haras. Mesmo com as críticas de entidades protetoras dos animais, ela se orgulha do contato com os chimpanzés. "Somos o único circo no mundo onde eles nascem criados em cativeiro. O primeiro veio nos anos 80 e já tem bisnetos." Na última sexta-feira, um derradeiro espetáculo no circo foi feito espacialmente para um programa de televisão.

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