Cinelândia recebeu principais manifestações políticas no Rio

Da participação do Brasil na Segunda Guerra aos cara pintadas, praça onde presidente americano, Barack Obama, vai discursar tem trajetória de mobilização popular

Alfredo Junqueira, de o Estado de S. Paulo

14 de março de 2011 | 18h07

RIO - Local escolhido para o discurso do presidente americano, Barack Obama, a Cinelândia foi palco de algumas das principais manifestações políticas e populares no Rio ao longo do século 20.

Dos movimentos em favor da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos aliados às mobilizações dos caras pintadas que defendiam o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, passando pelas passeatas contra a ditadura militar e as manifestações em favor da redemocratização, a Praça Floriano e seu entorno - região popularmente chamada de Cinelândia - já receberam milhões de pessoas em protestos. Muitas dessas manifestações tinham retórica nacionalista e viés antiamericano.

"Aquele é um lugar de outros gritos. Abaixo os Yankees, abaixo o imperialismo americano", relembra a historiadora Marly Silva da Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). "O eixo Candelária-Avenida Rio Branco-Cinelândia tem uma representação política muito grande na história do Rio e do País. Guarda, principalmente, uma memória trabalhista e é uma referência de mobilização popular", explica Marly.

Para ela, a escolha da Cinelândia como local para o discurso de Obama representa uma "jogada política de alto risco". Mais do que o eventual embate ideológico contra forças políticas que não se mobilizam há muito tempo - a última grande manifestação popular bem sucedida no local foi a comemoração pela primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 -, o tamanho da região e a capacidade de mobilização é que podem ser determinantes no sucesso ou fracasso do evento.

"Para aquilo ficar cheio vai precisar de muita gente", afirmou a historiadora. "Não tenho certeza da capacidade de mobilização popular (para encher a Cinelândia). Um País que pouca gente entende inglês, por exemplo. Será preciso uma estratégia muito bem montada de comunicação para atrair as pessoas. É uma jogada política de alto risco que pode ser um sucesso retumbante, mas que também pode ser um fracasso e ele acaba saindo menor do que entrou".

Um dos grupos políticos que mais utilizaram a Cinelândia como palco de manifestações e área de mobilização foram os trabalhistas. A força do movimento se registrou, principalmente, na década de 50, após o suicídio do então presidente Getúlio Vargas, e nos anos 80, com a volta do exílio de Leonel Brizola e suas campanhas ao Governo do Estado do Rio e à Presidência da República. Com barracas de venda de produtos e palco improvisados para discursos e debates, a Brizolândia mobilizou milhares de militantes. Hoje, no local, resta apenas uma mesa e uma barraca com uma bandeira do PDT, partido presidido por Brizola até a sua morte, em 2004.

"Lamento profundamente que a Cinelândia tenha sido escolhida para exposição da retórica americana. Ainda mais num momento como esse, em que a farsa americana no Oriente Médio está tão exposta", argumentou o deputado estadual Paulo Ramos (PDT), um dos poucos políticos que ainda seguem a cartilha brizolista no Rio. "Já temos grupos se mobilizando para protestar. O mote vai ser `tira a mão do petróleo do Oriente Médio'", disse o pedetista.

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