Cinegrafista de massacre no Pará não vai depor

O cinegrafista Raimundo Osvaldo Araújo, que filmou no dia 17 de abril de 1996 o massacre de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, anunciou que não vai mais depor no julgamento do major José Maria de Oliveira, previsto para acontecer na terça-feira, no salão do Tribunal do Júri, em Belém. "Eu já falei tudo o que tinha a dizer nesse processo e não quero mais me desgastar com esse caso", disse Araújo. Ele explicou que sua decisão de não comparecer ao julgamento de Oliveira foi comunicada ao promotor Marco Aurélio do Nascimento, na terça-feira passada, durante o depoimento que prestou como testemunha da acusação no julgamento do coronel Mário Pantoja, que acabou condenado a 228 anos de prisão. A postura firme e serena do cinegrafista, ao afirmar que a tropa do coronel Pantoja já chegou ao local do conflito atirando contra os sem-terra, contribuiu para a condenação do acusado, por 4 votos a 3. De acordo com o depoimento que já prestou em juízo, ainda na fase de instrução do processo, a tropa de 70 homens de Parauapebas, comandada pelo major Oliveira, teria sido responsável pela morte de 16 dos 19 sem terra. "Isto tudo eu já falei ao juiz e não preciso mais repetir". Embora não queira admitir, Araújo estaria sofrendo pressões de familiares para não depor amanhã. Morando hoje não cidade de Tucuruí, a 350 km de Belém, ele enfatiza que sua vida profissional está "parada" há seis anos. As imagens que produziu foram exibidas em todo o mundo, mas ele nada ganhou com isso. "Tenho de retomar minha vida profissional e cuidar da família. Não quero mais falar nesse julgamento ou dar entrevistas, porque minha imagem ficará ainda mais desgastada", diz o cinegrafista, que hoje pouco sai da pequena casa onde vive em Tucuruí. Araújo teme que algum dia possa a sofrer algum tipo de represália por ter acusado os comandantes militares envolvidos na morte dos 19 sem terra. O promotor Marco Aurélio do Nascimento informou que a estratégia do Ministério Público não vai mudar com a ausência de Araújo. "O major Oliveira é tão culpado nesse episódio quanto o coronel Pantoja, e para ele também queremos a pena máxima". Segundo Nascimento, ele compreendeu os motivos do cinegrafista e o dispensou do depoimento.

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