Cinco décadas falando de casa, vestidos e até feminismo

Caderno inovou ao levar a suas leitoras desde moldes de vestidos até o feminismo da filósofa Simone de Beauvoir

Acervo Estadão

24 de setembro de 2014 | 21h44

“Estamos longe ainda do momento em que a mulher deixará sua posição de inferioridade. Apesar dos progressos havidos, restam na própria mulher contradições que dificultam a sua libertação. A que trabalha quer ficar em casa e doméstica quer trabalhar.” A declaração da filósofa francesa Simone de Beauvoir em entrevista exclusiva para o Suplemento Feminino durante sua passagem pelo Brasil junto com o marido Jean-Paul Sartre, em 1960, ilustrava a situação feminina naquela década - que seria marcante para as conquistas das mulheres. 

Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita havia assumido havia poucos meses a direção do caderno semanal quando editou a capa em que, além de Simone de Beauvoir, aparecem a escritora e poeta Hilda Hilst falando sobre homem bonito e uma ilustração sobre as últimas tendências da moda italiana. 

A capa que traduzia a contradição descrita pela autora existencialista, considerada um ícone do feminismo e uma respeitável estudiosa da condição das mulheres, não era uma exclusividade daquela edição. Nas mais de cinco décadas em que comandou o caderno, Cecília Mesquita misturou a sofisticação dos últimos lançamentos da moda, mobiliário e culinária, que se misturavam com literatura, serviços, cinema, teatro, cultura e cuidados com as crianças. Uma seção fixa chamada Página Infantil, assinada e desenhada por Maria Heloisa Penteado, com crônicas e contos especialmente escritos para o Suplemento Feminino, tornara-se marco da literatura para crianças. 

A histórica entrevista com Simone aconteceu na visita que o casal francês fez à fazenda que, durante anos, seria a residência de Cecília Mesquita. 

“O mundo é ainda dos homens. A situação da mulher brasileira, pelo pouco que pude observar, é semelhante à da francesa. Na Rússia, apesar de ser o país onde as mulheres ocupam postos de maior responsabilidade, prevalecem ainda os privilégios do homem”, respondeu a filósofa quando perguntada sobre o papel vivido pelas mulheres na sociedade e percebido durante as suas viagem por vários lugares do mundo. 

Nas duas páginas seguintes à entrevista da escritora francesa, como um contrapeso que poderia soar antagônico, seis mulheres de destaque no mundo artístico e literário respondiam para o Suplemento o que seria para elas um modelo de beleza masculina. “Receitas para um homem bonito” trazia a atriz Cacilda Becker, a cantora Maysa, a artista plástica Maria Bonomi e a poetisa Hilda Hist descrevendo, cada uma, suas preferências em relação ao sexo oposto. “Virilidade”, tascou sem maiores explicações a escritora. “Um pouco de doideira”, foi a resposta de Maysa. “um quê de ingenuidade”, responderia Cacilda. Maria Bononi foi a que mais se alongou e evocou o clássico padrão grego, destoando das colegas entrevistadas. Mas a diversidade era uma marca do caderno: uma nova virada de página e o ele já trazia a arte de cultivar antúrios e um detalhado horóscopo para a semana seguinte. 

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