Cidade de Temer foi profética sobre 2015

Ainda na campanha eleitoral, Tietê separou as candidaturas do vice e da presidente Dilma

Pedro Venceslau, enviado especial, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2015 | 19h17

TIETÊ - O vice-presidente Michel Temer e a presidente Dilma Rousseff estão “rompidos” há mais de um ano na pequena Tietê, cidade natal do peemedebista, na região metropolitana de Sorocaba, no interior de São Paulo. O descolamento da dupla ocorreu em 12 de setembro de 2014, em plena campanha presidencial, quando ninguém imaginava o turbilhão político que viria pela frente.

Apesar de ter assumido a missão de fortalecer a campanha da chapa no interior paulista, naquele dia Temer foi até sua cidade inaugurar um comitê no qual ele parecia ser o presidenciável.

Com seu aval, aliados confeccionaram adesivos, banners e até um jingle com o slogan “Vote 13, Michel Temer”. A letra do jingle que circulou pelas ruas da cidade em carros de som até o dia da votação não só ignorou o nome de Dilma como apresentou Temer como candidato: “Ele nasceu e foi criado aqui. Ele venceu e hoje representa o Brasil. Michel Temer para presidente da nossa nação”.

A prestação de contas do vice mostra que sua campanha em 2014 gastou R$ 3.100 para produzir materiais específicos para a cidade natal. O prefeito Manoel David (PSD), adotado politicamente por Temer, recebeu a tarefa de garantir a vitória simbólica e afetiva do vice na cidade. Mas a estratégia não deu resultado e a chapa PT-PMDB recebeu apenas 3.320 votos no 1.º turno, contra 4.093 de Marina Silva (PSB) e 12.422 de Aécio Neves (PSDB). “O resultado não foi dos melhores. No 2.º turno, Aécio ganhou aqui com aproximadamente 8 em cada 10 votos”, conta o prefeito.

Quase um ano depois da segunda posse da dupla, moradores de Tietê, familiares e amigos de infância do vice-presidente dizem que o município vive agora um clima de reconciliação com seu filho ilustre.

Na praça central da cidade, até uma placa foi instalada com um poema de Temer chamado O Relógio, do seu livro Anônima Intimidade, que reúne “pensamentos” anotados pelo vice em guardanapos de papel durante viagens aéreas entre Brasília e São Paulo: “Ontem o vi. Estava radiante. As horas batiam fortes. Estava alegre. Será o relógio ou serei eu?”.

Torcida. Professora de matemática de Temer na 5.ª e 6.ª séries, no Instituto de Educação Plínio Rodrigues de Moraes, Ossin José, de 91 anos, conta que assiste todos os dias ao noticiário da TV para saber os últimos capítulos da novela política sobre o impeachment.

Ela se diz aliviada por seu ex-aluno ter se afastado da presidente Dilma. “Ele se afastou dela com aquela carta. Michel fez a coisa certa, já que sempre foi colocado de lado e não participou das decisões. Foi um coadjuvante”, afirma.

Questionada sobre seu voto na última eleição presidencial, Ossin desconversa. “Não voto desde os 71 anos. Não sou PT, sou Temer. Dilma é pau mandado do Lula. Está muito atrelada ao partido. Tem que obedecer o chefão lá em cima”, alega.

Quando recebeu a reportagem do Estado em sua casa, Cleusa Maria Tamer, de 65 anos, sobrinha do vice-presidente, estava assistindo a um programa de debates na TV fechada, cujo tema era o impeachment, ao mesmo tempo em que folheava uma revista semanal com seu tio na capa. “A minha expectativa é de que meu tio tenha um bom desempenho como presidente e não sofra, porque a pressão é muito grande.”

Ela espera que agora, depois da divulgação da famosa carta, os moradores da cidade, onde Temer mantém uma chácara na qual passa os fins de semana, reconheçam o valor do tio. “A população pensante de Tietê torce por ele, mas muitos não torciam porque aliam a pessoa dele ao partido da presidente. E também criticam por ele sempre estar ao lado do poder, mas o papel do político é esse”, diz.

Para Cleusa, a carta escrita pelo tio durante a semana à presidente “saiu do coração”. “Ele não desejou que tivesse tido toda essa repercussão, mas uma hora o copo entorna.” Amigo de infância de Temer, o vice-prefeito de Tietê, Antonio José Viotto (PMDB), se mostra inconformado com a resistência ao vice-presidente na cidade. “As pessoas têm inveja. Se ele morasse em Cerquilho (município a 8 km de Tietê), seria mais valorizado.”

Porta aberta. O prefeito Manoel David conta que o vice-presidente se empenhou na estratégia de reconquistar os eleitores da terra natal. “Dr. Michel trouxe ultrassom, posto de saúde e uma passarela de pedestres. Já consegui cadastrar mais de R$ 50 milhões em obras públicas no governo federal”, conta. “Dizem em Brasília que Tietê não tem portas em Brasília.”

Para ilustrar esse empenho do vice, David conta um episódio que o impressionou. “Ele ligou para o Gastão Vieira, então ministro do Turismo, e disse: estou com o prefeito da minha cidade aqui. Se eu não ajudar ele, não posso mais voltar para lá. Receba ele aí e veja o que pode fazer”. / COLABOROU VALMAR HUPSEL FILHO

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