Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE

Chuteiras novas à espera de um gramado

Rafael, 12 anos, é um dos 3.200 meninos que o Segundo Tempo não deixou entrar em campo

Leandro Colon, de O Estado de S.Paulo,

19 de fevereiro de 2011 | 21h50

BRASÍLIA - Duas ONGs de fachada, 32 núcleos esportivos fantasmas e 3,2 mil crianças enganadas. Esse é o saldo de dois convênios do programa Segundo Tempo no Distrito Federal. Metade do dinheiro foi liberada, as crianças preencheram fichas de inscrição, os projetos foram usados como propaganda eleitoral por políticos do PC do B, mas nunca saíram do papel.

 

Veja também:

link Segundo Tempo turbina caixa e políticos do PC do B

link Ministério defende seus critérios e culpa entidades

link ONG recebe R$ 4,2 mi e abandona núcleos

 

Os núcleos esportivos deveriam funcionar em Ceilândia (cidade satélite do DF) e Novo Gama (cidade goiana). Um deles espera até hoje por um campo de futebol - por enquanto, só há mato e promessas. O vice-presidente do PC do B local, Apolinário Rebelo, usou o programa para fazer campanha e tentar se eleger deputado distrital depois de ter sido diretor de Esporte Universitário no Ministério do Esporte.

 

Fã do craque Robinho, o menino Rafael dos Santos Lima, 12 anos, ganhou no ano passado um par de chuteiras de R$ 60 comprado em prestações por sua mãe, a diarista Maria Ruth. O jovem queria usá-las no Segundo Tempo prometido no seu bairro, chamado América do Sul, na periferia do Novo Gama.

 

Rafael não conseguiu até agora chutar uma bola no local. Ele está entre as crianças que preencheram as fichas de inscrição, mas não sabem o que é o Segundo Tempo.

 

Em Ceilândia, a entidade contratada pelo governo pertence ao casal Ronaldo Firmino da Silva e Gláucia Nunes. Na campanha eleitoral, os dois deram um depoimento à revista oficial de Apolinário Rebelo a deputado distrital: "Assim é o Apolinário, um amigo para a gente sempre estar junto".

 

Durante a campanha, segundo o site de Rebelo, o casal abriu a própria casa para oferecer uma galinhada ao dirigente comunista, que acabou não se elegendo.

 

A dupla é dona da Associação Ação Solidária e Inclusão Social, que usa os fundos da casa de um motorista de caminhão.

 

No dia 31 de dezembro de 2009, a entidade fechou um convênio com o Ministério do Esporte para implantar o Segundo Tempo ao longo de 2010. De um contrato de R$ 353 mil, pelo menos R$ 176 mil foram liberados em maio, a quatro meses da eleição. Nenhum dos dez núcleos esportivos previstos foi instalado. O projeto fala em mil crianças beneficiadas até março deste ano.

 

Só placa. Para garantir o convênio, a ONG usou endereços de quadras públicas que jamais receberam o programa do ministério. No endereço oficial da entidade, uma grande placa anuncia a sua existência e a implantação do Segundo Tempo. A placa foi colocada durante a campanha.

 

A comunidade de Ceilândia reclama da falsa propaganda. "O Ronaldo veio atrás de mim com esse negócio de Segundo Tempo. Eu até preenchi umas fichas para ele, antes da eleição, e fiquei aguardando. Só que ele não me deu retorno. Por enquanto, não está funcionando nada", conta Ari dos Santos, que dá aulas de futebol na região.

 

Vinte e dois núcleos do programa foram cadastrados na cidade de Novo Gama, no entorno do DF, pelo Instituto de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente (Idec), uma ONG fantasma registrada na casa do seu presidente, Ranieri Gonçalves.

 

No último dia de 2009, a entidade assinou um convênio no valor de R$ 787 mil com o Ministério do Esporte para instalar, em 2010, os núcleos do Segundo Tempo e beneficiar 2,2 mil jovens. Pelo menos R$ 393 mil foram liberados pelo governo. Placas fazem propaganda do projeto pela cidade, mas o programa nunca existiu - e o contrato termina em 31 de março.

 

No bairro América do Sul, por exemplo, onde mora Rafael, o menino das chuteiras, os núcleos são registrados na casa de um colaborador da ONG. A prática esportiva deveria ocorrer na rua ao lado, onde um terreno vazio aguarda a chance de virar campo de futebol.

 

‘Não veio nada’. Crianças do bairro cruzam aquela área em seu caminho para voltar da escola. "O Segundo Tempo não chegou. Era pra fazer um campo para futebol e vôlei, mas nada aconteceu. A verba foi liberada, mas não veio nada", lamenta Fanor Teixeira, que preside a associação de moradores do bairro.

 

Outros quatro núcleos estão registrados num clube abandonado mantido por um vereador. Material esportivo enviado pelo Ministério do Esporte encalhou no quintal da casa do presidente da ONG.

 

Em busca de votos dos eleitores do DF que moram na cidade, Apolinário Rebelo (que é irmão do deputado Aldo Rebelo) visitou o Novo Gama em agosto passado e festejou ter conseguido o Segundo Tempo para os moradores.

 

Em seu site oficial, Apolinário Rebelo afirma que obteve o projeto com o "amigo" Ranieri Gonçalves, presidente da ONG.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.