Chinelo vira moeda de troca por voto no AP

Políticos tentam subornar eleitores do Estado também com cestas básicas; Ministério Público recebe de 20 a 30 denúncias por dia

Bruno Paes Manso ENVIADO ESPECIAL / MACAPÁ,

30 de setembro de 2010 | 04h22

Ofertas de material de construção, dinheiro vivo e empregos públicos são as mais comuns na campanha política do Amapá. Mas também existem candidatos pedindo votos armados, na base da ameaça, dando chinelinhos infantis do Ben 10 e do super-homem para crianças de bairros pobres, além de botijão de gás e cestas básicas.

 

Nos últimos 30 dias,o Ministério Público Federal do Amapá recebeu uma média de 20 a 30 denúncias de compra de voto por dia. A maioria não cita nome do suspeito ou local onde o crime está ocorrendo. Mas 74 tiveram informações suficientes para nortear o trabalho dos policiais federais e 14 viraram inquéritos, além de terem ocorrido 3 prisões em flagrante.

 

"É difícil conseguir provas e precisamos correr para entrar com uma ação antes de os políticos eleitos serem diplomados.

Mas, nos dias anteriores à eleição a situação só tende a piorar", afirma o procurador regional eleitoral do Amapá, José Cardoso, Encarregado de receber as denúncias no Estado.

 

Para inibir o comércio de votos, o Tribunal Eleitoral Regional do Amapá (TRE-AP) informou ontem que limitou o valor do saque bancário em R$ 10 mil até o dia da eleição. A Polícia Federal também reforçou a vigília, colocando nas ruas um efetivo quatro vezes maior que o normal.

Até o dia das eleições, 200 Federais vão ficar no Amapá - parte deles participou das investigações da Operação Mãos Limpas.

 

Entre as prisões efetuadas por crime eleitoral, uma delas ocorreu em agosto e envolveu o candidato a deputado estadual Ocivaldo Gato (PTB). "Uma senhora veio ao Ministério Público dizer que ele estava ameaçando com revólver se não votasse nele. Eu não acreditei, achei um absurdo, mas solicitei o apoio da PF para verificar", conta o procurador Cardoso. "Chegando lá, prendemos um homem em flagrante com arma, dinheiro e santinho a serem distribuídos."

 

Chinelinho. Ontem, o Estado esteve nas chamadas "regiões alagadas"de Amapá para conversar com os moradores sobre a compra de voto. As "regiões alagadas" ou "pontes" são as favelas da cidade, formadas por casas de palafita, construídas sobre os mangues, cortadas por passarelas de madeira que permitem o trânsito dos moradores. Em uma das casas, na Baixada do Ceará, duas mães contaram que haviam recebido ante ontem chinelinhos de super heróis em troca de votos. A distribuição dos chinelos foi relatada por diversos moradores das pontes.

 

Na Ponte do Muca,outro bairro de palafitas, a servente Lucineia Martel, que trabalha com empresa terceirizada que presta serviço ao governo do Estado, contou que vem sendo pressionada a votar pela reeleição do atual governo para receber salários atrasados.

 

Lucineia não recebe há quatro meses e calcula ter um crédito de R$ 1,7 mil. "Meu patrão reuniu os funcionários e disse para votar no governador(Pedro Paulo Dias) para garantir o recebimento de outubro em diante,mas eu me recuso a votar nele porque o governo já não paga o meu salário faz tempo", diz.

Outra denúncia, que ajuda a entender o clima pré-eleitoral no Amapá, foi feita ao TRE pelo Sindicato dos Urbanitários. A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), segundo os denunciantes, contratou diariamente, desde meados de agosto, de 15 a 20 pessoas em cargos comissionados que acabam trabalhando em campanhas.

 

Nas cidade de Pracuuba e Itaubal no Amapá, os sindicalistas afirmam que funcionários estão sendo coagidos a votar nos políticos que comanda a escolha de cargos na empresa - ala do PT amapaense que apoia o atual governo.

 

Nas ruas de Macapá, aumentou a quantidade de bandeiras, carros adesivados, cabos eleitorais e até trios elétricos. A campanha do governador Pedro Paulo Dias (PP), preso durante a Operação Mãos Limpas, apesar de contar com bastante cabos eleitorais, perdeu o ânimo na reta final. O debate de anteontem mostrou que a disputa eleitoral deve ficar entre Lucas Barreto(PTB) e Camilo Capibaribe(PSB), menos atingidos pelas denúncias da PF.

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