China, e não Estados Unidos, vira o entrave em Conselho de Segurança

País asiático é contra reforma porque isso daria ao Japão espaço no órgão da ONU; para Brasil, apoio americano à Índia foi sinal de abertura do debate

Lisandra Paraguassu, de O Estado de S. Paulo

19 de março de 2011 | 18h23

 BRASÍLIA - Atento aos sinais emitidos pelo presidente Barack Obama sobre as pretensões brasileiras de ocupar uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o governo de Dilma Rousseff tem em outro parceiro, a China, o principal entrave para a reforma na ONU e a candidatura brasileira ao posto.

 

Não que haja má vontade em relação ao Brasil. O que os chineses não querem é qualquer tipo de alteração no atual formato do Conselho de Segurança. Aliado com Alemanha, Japão e Índia, o Brasil já coleciona apoios para ser o representante latino-americano em uma eventual ampliação do Conselho.

 

No entanto, a própria ideia da reforma, que se arrasta há quase 10 anos, ainda não está garantida. Donos de um dos assentos permanentes, com direito a veto, os chineses não querem ver o Japão ao seu lado. Inimigos seculares e especialmente ferrenhos depois da 2ª Guerra, os dois países compartilham poucas coisas além da vizinhança na Ásia. Para o governo chinês, o Japão não deve ocupar cadeira no conselho por não ter se desculpado adequadamente por crimes de guerra.

 

No meio dessa rivalidade ficam o Brasil e suas pretensões. Em recente visita à Ásia e ao Oriente Médio, o chanceler Antonio de Aguiar Patriota colecionou apoios.

 

Além da Índia, já aliada, o Catar e Sri Lanka declararam ser favoráveis à candidatura brasileira. Na China, a pretensão foi recebida com silêncio. "Temos certeza de que, se a reforma sair, teremos o apoio dos chineses. Mas o que eles não querem é a reforma", diz um diplomata.

 

Até hoje, mais do que qualquer outro país, a China tem colaborado com os impasses nas negociações sobre a reforma do conselho. O relatório sobre as propostas de alterações já está na terceira versão, mas pouco foi adiante. Há várias propostas mas, apesar de duas serem as mais fortes, não se chegou a um acordo e pouco se avançou nos últimos meses.

 

Apesar de os chineses serem os mais refratários à ideia de um novo conselho, Rússia e Estados Unidos até hoje também não colaboraram com o avanço da reforma. Os russos apresentam uma certa indiferença ao tema, mas não são simpáticos a ele. Os Estados Unidos, até recentemente, não haviam se manifestado positivamente.

 

A declaração de apoio dos EUA à Índia, para a diplomacia brasileira, serviu mais como um sinal de que finalmente os americanos concordam em apoiar a discussão. Ainda assim, o chanceler brasileiro cobrou, recentemente, um engajamento dos americanos pela reforma.

 

Atualmente, o Brasil se aliou a Índia, Japão e Alemanha para formar o chamado G4, o grupo de candidatos mais ativos e mais fortes a assentos permanentes no conselho. A proposta apoiada pelo grupo prevê a ampliação dos membros dos atuais 15 para 25 assentos, sendo que os permanentes passariam de cinco (Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia) para 11, incluindo, além do G4, mais dois países africanos. A proposta prevê que os novos membros permanentes não terão direito a veto.

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