China é a grande estrela em Davos

Assim como o Japão nos anos 80 e os Estados Unidos na década de 90, a China vai assumindo o papel de grande estrela econômica mundial nesta primeira década do terceiro milênio. No debate de abertura sobre a economia mundial, no primeiro dia do Fórum Econômico Global, em Davos, na Suíça, a China foi aclamada como a única grande economia que está dando um show em um momento em que o mundo como um todo passa por sérios problemas. Um dos conferencistas, Jürgen von Hagen, economista do Centro para Estudos da Integração Européia, em Bonn, fez uma profecia ousada: o PIB da China vai superar o da zona do euro (os 12 países europeus que aderiram à moeda única) entre 2010 e 2020. Zhu Min, diretor-geral do Banco da China (banco central), que também fazia parte da mesa, desfiou alguns números impressionantes. Mesmo correspondendo a apenas 3,8% do PIB mundial a preços de mercado, a China contribuiu com 15% do crescimento global em 2002. E, no mesmo ano, mesmo sendo responsável por apenas 5,7% do comércio exterior mundial, o país respondeu por 60% do seu crescimento. Isto se explica pelo fato de que, em um ano em que o mundo teve crescimento medíocre, e o comércio global quase estagnou, a China cresceu 8%, e o comércio exterior do país expandiu-se a uma taxa de 21% (exportações mais importações somaram US$ 620 bilhões no ano passado). A China recebeu em 2002 US$ 52 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, pulando para a primeira posição entre todas as nações do mundo. Zhu Min estendeu-se sobre uma importante mudança no modelo de crescimento chinês, ocorrida nos últimos anos. As multinacionais já não são atraídas pela China apenas pela mão-de-obra barata, empregada para a fabricação de produtos de baixo valor agregado. Hoje, elas trazem para o país projetos de tecnologia de ponta, atraídas por um ambiente favorável no qual o custo da mão-de-obra é apenas um entre muitos fatores (o custo de um trabalhador chinês equivale, em média, a 5% de um americano). Isto não envolve apenas empresas estrangeiras do Primeiro Mundo. A parceria recentemente firmada pela Embraer para fabricar aviões na China é um típico exemplo de colaboração entre países emergentes, segundo Zhu Min, e que segue aquela tendência citada anteriormente, de trazer para o país tecnologias de ponta. "Um fator importante no desenvolvimento chinês hoje é que nós temos também uma massa muito grande de força de trabalho qualificada e disciplinada", disse Zhu Min ao Estado, depois do debate. Ele observou que a China tem uma das maiores forças de trabalho de engenheiros do mundo. "É claro que o engenheiro chinês também é mais barato que o americano, mas neste caso não é apenas 5%", acrescentou. Outro fator que atrai os projetos de alta tecnologia das multinacionais, segundo Zhu Min, é a estabilidade e a transparência das regras do mercado. Em termos de sistemas legais, uma das fragilidades do país, o economista lembrou que a China está fazendo um rápido progresso: "A nossa entrada na OMC (Organização Mundial do Comércio; a China entrou em 2002) fez com que os investidores se sintissem muito mais confortáveis. Nós fizemos um esforço extremamente duro, emendando ou abolindo cerca de 200 mil normas, para cumprir as exigências da Organização". Ele disse ainda que a China, no momento, está eliminando os subsídios fiscais para as empresas estrangeiras: "Há cinco anos, as empresas estrangeiras só pagavam 15% de imposto de renda, e os chineses 33%, mas neste ano não haverá nenhum tratamento tributário preferencial; os investidores não olham apenas questões tributárias, mas para todo o ambiente de negócios". Zhu Min mencionou ainda como parte da atratividade chinesa o fato de o País ter um grande mercado externo e interno, o que oferece uma proteção às empresas caso um ou outro vá mal, à estabilidade política e à segurança. Pelo lado problemático, o economista citou a crescente disparidade de renda entre a população rural de 900 milhões de pessoas, e a urbana, de 400 milhões. Estes últimos são responsáveis pelo espetacular desempenho industrial da China e pela sua renda que está crescendo a um ritmo superior a 10% ao ano. A renda da população rural, por outro lado, cresce a apenas 2% a 3% anuais. "O fato de 900 milhões de pessoas produzirem alimentos para 400 milhões faz com que o preço dos produtos rurais caia", disse Zhu Min. Com isto, o índice de Gini (que mede a distribuição de renda, e cresce quando a disparidade aumenta) saiu de 0,4 para 0,5 nos últimos anos.Veja o especial sobre os Fóruns de Davos e Porto Alegre

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