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Chile: modos de ler

Bolsonaro vê conspiração da esquerda, mas deveria ouvir outros recados

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

Jair Bolsonaro e seu entorno passaram a semana a gritar: “É o Foro de São Paulo!”, “é a esquerda”, “é terrorismo!”, apressados em fazer uma leitura rápida, e sempre eivada de ideologia binária, da convulsão política e social do Chile, da reação boliviana a mais uma eleição de Evo Morales e à iminência de volta do kirchnerismo ao poder na Argentina. Como se os três vizinhos fossem um monólito social, político e econômico em que não vigorassem realidades próprias.

O inimigo comum e facilmente rotulável serve a alguns propósitos, todos eles obscurantistas e que carregam aquela tentação autoritária subjacente à essência do bolsonarismo. Gritar pelo risco de volta da esquerda ao poder, usando como combustível, além do quadro no continente, a possibilidade de o espantalho-mor, Lula, ser solto a partir da decisão que o Supremo Tribunal Federal está para tomar em relação à prisão após condenação em segunda instância, ajuda a manter a tropa histérica, que andava meio dispersa e desconfiada, de novo mobilizada.

Alertar as Forças Armadas para que estejam a postos caso o perigo comunista se aproxime de Terra Brasilis fecha o quadro da leitura conveniente, e caolha, do que acontece nos nossos vizinhos. Mesmo para o sucesso do governo nas próximas e necessárias iniciativas na seara econômica seria conveniente abrir a grande angular e tentar enxergar para além da paranoia.

O caso chileno é emblemático de algo que uma parcela mais radical do pensamento liberal insiste em minimizar: desigualdade de renda é, sim, uma preocupação que deve estar no horizonte do capitalismo, sob pena de cada vez mais movimentos de inconformismo social brotarem, aparentemente do nada, em nações que estavam cumprindo os manuais de austeridade fiscal, abertura comercial e todas as demais práticas virtuosas do receituário econômico.

Por que isso interessa direta e imediatamente ao Brasil? Porque os próximos passos ensaiados à reforma da Previdência incluem em seus balões de ensaio ideias que mexem numa rede de proteção social construída ao longo de sucessivos governos e que, a um custo fiscal relativamente baixo, tratou de reduzir a desigualdade em um dado momento e evitou que os efeitos da recessão prolongada fossem ainda mais nefastos –inclusive em termos de inconformismo social.

Bolsonaro pode até achar, e parece mesmo acreditar nisso de forma tosca e pueril, que o Brasil virou uma grande república de direita, evangélica e conservadora, alheia, portanto, à possibilidade de que a universalização do acesso à saúde e a já precária educação pública sejam revistas. Liberalismo não é isso? Não, não é. Não em um País do tamanho do Brasil, com as profundas desigualdades regionais que tem e uma sociedade pouco politizada, mas bastante empobrecida.

A alternância de poder é uma das maravilhas da democracia justamente porque permite que o eleitorado, mesmo sem formulação teórica ou política, dose o que, naquele determinado momento, lhe convém mais. O fato de em 2018 a maioria deste eleitorado ter dado um recado contra a corrupção desenfreada não significa que ela virou automaticamente reacionária.

Se esse governo de direita for lido daqui a 3 anos como aquele que resultou na supressão de direitos sociais e priorizou um crescimento apenas para o andar de cima, o mesmo eleitorado que colocou Bolsonaro na Presidência vai tirá-lo de lá. 

O receituário de responsabilidade fiscal é necessário e urgente, mas Paulo Guedes e sua equipe precisam ter a sensibilidade de olhar para o Chile que até ontem era modelo e inspiração e entender que o povo– que em nada se parece com o militante das redes sociais – precisa entrar na equação política, porque senão ela não fecha.

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