Chico Xavier provocou "turismo religioso" em Uberaba

Uma das principais características de Uberaba é o turismo religioso que teve início com o trabalho do médium Chico Xavier na década de 70. Atualmente, cerca de 10 caravanas de todas as partes do País e até do exterior chegam à cidade nos finais de semana. Embora o objetivo dos turistas religiosos seja a Casa da Prece de Chico Xavier, os visitantes passam também pelo centro de outros dois médiuns e por algumas cidades da região. Os grupos visitam os centros de Celso Almeida e Carlos Borcelli. Ambos são seguidores de Chico e tem na figura do médium seu grande inspirador. Celso Almeida, de 62 anos, foi inclusive incentivado pelo próprio Chico Xavier a psicografar mensagens. "Resisti muito. Tinha medo de me expor e do julgamento alheio", contou Celso. Ele conheceu o médium em um evento na cidade de Sacramento quando ainda era muito jovem. Nesso encontro, Chico o chamou pelo nome e disse que iriam trabalhar juntos. Muitos anos depois, por coincidência, Celso se mudou para Uberaba para tratar da saúde da mãe. No mesmo ano, Chico Xavier também chegava na cidade. A previsão se confirmou. As caravanas chegam normalmente em Uberaba na madrugada de sábado e passam pelos centros dos seguidores de Chico Xavier. Por volta das 15h, elas se dirigem para os trabalhos na Casa da Prece, onde permanecem até 21h."É um turismo muito corrido, mas as pessoas voltam para casa gratificadas. Quem participa dessas excursões está em busca de conforto espiritual", avaliou Paulo Roberto Rezende, de 46 anos, que há 4 anos organiza grupos de turismo religioso em Belo Horizonte.Rezende estima que nesses anos de trabalho já levou para Uberaba cerca de 3 mil pessoas. O organizador e uma colega de trabalho receberam há um ano e meio um bilhete escrito a lápis pelo médium. ?Ele nos dizia para não deixarmos de trazer à Uberaba as mães de corações aflitos".Uma viagem de turismo religioso com o pacote completo custa em torno de R$ 150,00, partindo de Belo Horizonte. De São Paulo a viagem é mais cara: R$ 190,00.O turismo religioso movimenta o setor hoteleiro de Uberaba. São 24 hotéis dos mais simples aos mais sofisticados num total de 3 mil leitos. Nos finais de semana, esses turistas são responsáveis por 75% da ocupação da rede hoteleira. A estimativa é de Marcos Borges, delegado do Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares de Uberaba.Borges não acredita que, a curto prazo, esse tipo de turismo sofra uma queda por causa da morte do médium. " Não dá pra negar que uma coisa é a presença de Chico e a outra e a cidade sem ele. Mas como é uma figura muito querida, é possível que as pessoas continuem a visitar sua obra e se interessem em conhecer o trabalho que ele deixou".Já os 180 taxistas da cidade não escondem a preocupação com a queda na atividade. Eles chegam a estimar uma redução de 70% no mercado de trabalho. Pelos cálculos dos taxistas, cada profissional faz em média 10 corridas nos finais de semana em torno da Casa da Prece. Isso equivale a 1.800 viagens de táxi em Uberaba relacionadas a Chico Xavier. MúsicaO velório do médium Chico Xavier teve música grande parte das 44 horas de duração. As manifestações musicais tiveram início na noite de ontem e prosseguiram até o cortejo e o sepultamento, que deve acontecer no final da tarde. O repertório musical era dos mais variados. De grupos cantando MPB e canções espíritas a CDs de Roberto Carlos e música clássica.Um dos primeiros a cantar no velório foi o comerciante de Uberaba Sergio Santos, 54 anos. Com seu violão, ele tocou e cantou músicas espíritas, como fez durante anos nas sessões de psicografias de Chico Xavier. "O Chico gostava de música porque trazia alegria. As vezes parava o que estava fazendo para nos aplaudir", contou Sergio, que já gravou três Cds e se dedica à música espírita há mais de 30 anos. De acordo com os amigos, quando os assessores colocavam música clássica que Chico Xavier considerava triste, ele não hesitava em mandar um bilhete bem humorado. " Por favor, música de filme", escrevia, pedindo para que a canção fosse trocada.Integrantes do centro espírita Perseverança, da Água Rasa, zona leste da capital paulista, também cantaram durante toda manhã e início da tarde de hoje. Com dois violões, eles cantaram de músicas espíritas a canções de MPB, sempre acompanhadas com ritmos de palmas. "Como Chico Xavier considerava música uma alegria, foi dessa maneira que viemos homenageá-lo", afirmou o analista de sistemas, Agostinho Fernandes de 41 anos. O grupo com 21 pessoas deixou São Paulo em um microônibus e enfrentou quase 7 horas de viagem até Uberaba, mas não perderam a animação.HistóriasEm grandes caravanas ou solitárias, pessoas de todas as partes do País tinham história de amor e admiração com Chico Xavier.A advogada Aurora Lourenço Martins, de 46 anos, não conseguia parar de chorar. Há 22 anos ela frequenta a Casa da Prece e nesse período conseguiu estabelecer contato próximo com o médium. Ao longo de 16 anos, seu maior questionamento com Chico Xavier era o motivo pelo qual ela não conseguia engravidar, já que acalentava o sonho de ser mãe desde a juventude. Em outubro de 1995, sua mãe, a quem era muito ligada, morreu. " Foi um processo de grande sofrimento", lembra. Em dezembro, Chico Xavier mandou um recado que gostaria de vê-la. "Ele me disse que o receberia uma compensação em breve, mas não falou o que era?. Em janeiro do ano seguinte, Aurora ficou grávida e Chico, ao vê-la, disse : "Você vai parar de chamar por mãe e passar a ser chamada de mãe". A frase marcou para sempre a vida da advogada.Chico Xavier psicografou também uma mensagem de sua mãe Isaura. " Ela dizia que estava feliz e compreendia porque não pude lhe dar o neto que ela tanto queria quando estava viva. Mas o mais bonito foi minha mãe dizer que todas as noites abençoava meu filho e estava conosco".Por essa gratidão, Aurora deixou o marido e o filho em casa e tomou um ônibus para Uberaba, numa viagem que demorou 9 horas por causa de um acidente na estrada. Ela ficou poucas horas próxima ao corpo. "O mínimo que eu podia fazer era vir aqui e orar para um ser que já é tão iluminado".CãesChico Xavier não era caridoso apenas com seres humanos, mas também com os animais. Os amigos contam que ele costumava preparar comida e distribuir para os cachorros de rua quando morava em Pedro Leopoldo. Ele não se conformava em ver os animais passando fome. O médium tratava os cachorros à noite depois de sua extensa jornada de trabalho.Ao longo de sua vida em Uberaba, o espírita teve vários cães em sua casa. Uma pequena cadela vira-lata - que atualmente vive nas imediações da Casa da Prece - permaneceu quase todo os dois dias de velório deitada debaixo do caixão do médium.As poucas vezes que abandonava o local se limitava a ficar no jardim da casa e rapidamente voltava para perto de Chico. A fidelidade do animal, que ninguém sabia o nome, chamou a atenção de muitas pessoas que foram prestar a sua última homenagem ao médium.

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