"Chegou meu fim", disse Covas um dia após ser internado

"Chegou meu fim". Estas foram as palavras pronunciadas pelo governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), no 26 de fevereiro, um dia após a sua última internação no Instituto do Coração (Incor), quando percebeu que seu estado de saúde piorava, segundo revelou hoje o diretor-geral do instituto, o cardiologista José Antonio Ramires."O governador ingressou no hospital apresentando péssimas condições físicas e admitiu ir para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), apesar de sua natural resistência ao local. Covas manifestou, muitas vezes, de forma enfática, mas com bom humor, que ´odiava hospital e sequer suportava os médicos´. Exausto na sua luta contra o câncer, o governador sempre dizia, antes dos exames: ´sem anestesia, não faço!´", destacou Ramires.Segundo o diretor do Incor, ainda no dia 26, quando já estava instalado em um quarto normal e começou a piorar, o governador comentou: ´eu não volto mais para a UTI´. Ramires disse que a equipe médica acatou a vontade do governador, depois de estudar a evolução natural da doença. "Agimos assim por muitos motivos, expressados pelo David Uip nas entrevistas como ´o limite da dignidade do ser humano´", explicou o diretor do Incor. "A UTI gera uma expectativa de esperança para a família do paciente que não era real num caso tão grave como o do governador", enfatizou Ramires. "Fizemos tudo o que foi possível para a sua recuperação. Quando vimos que o quadro era irreversível, só nos restava diminuir sua dor física e afetiva nestes últimos momentos. E, em relação ao segundo aspecto, a proximidade dos entes queridos é fundamental, e não se daria na UTI", afirmou. "Não podíamos trabalhar em busca de resultados incabíveis neste setor, e procuramos evitar soluções hipotéticas"."Nestes três anos em que atendemos ao governador, nunca tivemos dúvidas em relação ao grande desafio que tínhamos pela frente. Não partimos para a luta derrotados, mas apesar do sucesso da primeira cirurgia, estávamos conscientes que a vitória final contra a doença seria muito difícil", afirmou Ramires.Segundo o diretor do Incor, o governador fazia questão de não interromper a rotina do hospital. "Independente do cargo que ocupava, ele respeitava o papel de cada um, e nos tratava como seres humanos", destacou Ramires.O diretor do Incor disse que a equipe multidisciplinar de atendimento ao governador não era exclusiva, ou seja, fazia parte do quadro normal do hospital. "Durante os dias em que ficou internado no Incor, a única diferença notada foi um pequeno grupo de seguranças particulares que garantiam sua guarda nas proximidades do seu quarto", destacou. Mário Covas passou seus últimos oito dias no sexto andar do Incor, que é dividido em dois pavilhões, com 58 leitos, atendidos por cerca de 60 profissionais: 35 enfermeiras, oito fisioterapeutas, seis nutricionistas, oito psicólogas, além do pessoal da limpeza. Segundo Ramires, 75% destes leitos são do Sistema Único de Saúde (SUS) e 25% de convênios particulares."O governador ficou internado na divisão correspondente ao convênio, como qualquer pessoa pública que necessita de certa privacidade, por medidas de segurança ou, em certos casos, para continuar sua atividade profissional sem interromper o tratamento médico", destacou Ramires. Mário Covas se alojou em uma suíte, com uma sala contígua. De acordo com o diretor do Incor, uma internação deste nível, em um período de 10 a 15 dias, custa em média R$ 10.000,00. "No caso do Covas, houve um acréscimo relativo aos medicamentos contra o câncer", afirmou. Ramires disse que ignora o valor gasto com tais remédios.Trabalhando desde 1977 no Incor e há três anos como diretor-geral, Ramires traçou um paralelo com o "caso Tancredo Neves", internado há 16 anos no mesmo hospital. "Em todos estes anos muitas outras autoridades já estiveram neste hospital. Mas, a passagem de Tancredo Neves foi singular: um fato de comoção e neurose nacional, gerado em Brasília e transportado para São Paulo. Houve de tudo: de médico da Suíça oferecendo antibiótico até donas de casa ofertando comida saborosa. Isto só traz transtornos para o paciente. Foi um aprendizado que não se repetirá jamais. Não admitimos isto com Mário Covas e não admitiremos com ninguém", enfatizou.

Agencia Estado,

06 de março de 2001 | 18h31

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