Chávez chega à Argentina e acusa Bush de hipócrita

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desembarcou em Buenos Aires às 23h20 de quinta-feira em meio a um forte esquema de segurança coordenado por militares venezuelanos. Chávez vai encabeçar nesta sexta um ato "antiimperialismo" organizado pela Associação das Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires. Ao desembarcar na capital argentina, Chávez disse que o presidente dos EUA, George W.Bush, deveria receber "a medalha de ouro da hipocrisia" pela viagem à América Latina. "É preciso dar ao presidente dos Estados Unidos a medalha de ouro da hipocrisia. Agora ele diz que está preocupado com a pobreza na América Latina", disse a jornalistas. "Ele descobriu isso agora. Depois de tantos anos de pobreza na América Latina, justamente quando o império norte-americano é o principal culpado".Analistas acreditam que a viagem de Bush a cinco Nações latinas é uma tentativa de conter a influência de Chávez na região, onde o sentimento anti-americanos é forte, principalmente nos locais de grande pobreza. Segundo a Casa Branca, a intenção da viagem é amistosa, mas Bush vai escutar muitos ruídos por onde passar, como ficou demonstrado em sua chegada ao Brasil. O maior protesto previsto será justamente o de Buenos Aires.Além das Mães da Praça de Maio, o ato está sendo organizado pelos líderes piqueteiros (desempregados que recebem subsídios estatais) alinhados com o governo de Néstor Kirchner. A conta, no entanto, quem paga é Chávez, enquanto que a logística fica por conta de Kirchner. A presidente da entidade, Hebe de Bonafini, afirma que o ato anti-Bush terá um público de 30 a 40 mil pessoas. No estádio de futebol do Ferro Carril Oeste, localizado em um bairro tradicional da capital argentina, Caballito, Chávez fará um duro discurso contra Bush. A segurança do ato anti-Bush será feita por 300 militares venezuelanos que acompanham Chávez e outros mil piqueteiros, o que já vem causando polêmica. O deputado do opositor "Pro", Cristian Ritondo, apresentou à Câmara dos Deputados um pedido de informações do Executivo para que explique os detalhes da operação.Mão amigaO governo argentino defendeu a organização do ato em Buenos Aires comandado por Chávez contra Bush. "Quando a Argentina estava muito mal, a Venezuela estendeu sua mão´, destacou o ministro argentino de Interior, Aníbal Fernández. Ele declarou a diversas rádios que a Argentina "não está alinhada" com a Venezuela e tampouco com os Estados Unidos. Fernández não viu problema na participação de Chávez no protesto. "Se o Bush viesse e quisesse fazer um ato, o que eu lhe diria? Que não? Se tem um presidente disposto a vir, com gente com afinidades ideológicas que o convidam, por que não?", disse.O evento não terá a participação de Evo Morales, presidente da Bolívia, como esperavam Chávez e Bonafini. "O presidente definiu que não vai estar na Argentina", disse o diretor de Comunicações do governo boliviano, Gastón Núñez, à rádio Erbol. Segundo ele, Morales "não chegará a tempo" do Japão para poder assistir ao ato, como havia sido anunciado.Kirchner e Chávez vão se reunir na residência oficial de Olivos, onde terão um almoço, seguido da assinatura de vários acordos nas áreas de energia e hidrocarbonetos entre as estatais PDVSA, da Venezuela, e Enarsa, da Argentina.MercosulHugo Chávez convocou o Mercosul a olhar para sua própria atuação antes de criticar a de outros blocos e atender as demandas dos membros menores para não "morrer como a Comunidade Andina de Nações (CAN)". O presidente disse que a entrada da Venezuela no Mercosul veio acompanhada de uma solicitação para reformar o bloco no qual, segundo ele, "não podem se repetir as coisas que foram criticadas na Rodada de Doha e na Área de Livre-Comércio das Américas (Alca)"."É preciso levar em conta as assimetrias. A Venezuela é um país que pode ser classificado na categoria dos médios do Mercosul. Agora, os países maiores, Brasil e Argentina, estão convocados a ouvir esta necessidade dos menores, os países que têm mais dificuldades para levar adiante seus projetos de desenvolvimento", afirmou.O venezuelano disse que o Mercosul deveria garantir a comercialização "sem qualquer tipo de impedimentos ou tarifas" da produção do Uruguai, que, junto ao Paraguai, são as menoreseconomias do bloco.Chávez ressaltou que o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, comentou que o Uruguai não tem conseguido vender arroz ao Brasil. "Se comparada com as necessidades de consumo do Brasil, aprodução do Uruguai é muito pequena. Tabaré me disse: ´Graças a Deus tenho um vizinho muito bom que está comprando o meu arroz, o Irã´.Este país compra o arroz uruguaio, ou boa parte de sua produção, porque o Brasil não quer comprá-lo", disse Chávez."Que Mercosul é este? Tabaré tem razão. Ou transformamos o Mercosul, ou ele morrerá, assim como aconteceu com a CAN, porque deixou isso nas mãos de transnacionais", acrescentou o presidenteVenezuelano.(Com EFE e Reuters)Este texto foi ampliado às 13h17.

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