Chanceleres informais de Lula irritam o Itamaraty

Ministros e assessores assumem papel de diplomatas, com o aval do presidente

João Domingos e Denise Chrispim Marin, Brasília, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

Nos últimos dias o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, dedicou parte de seu tempo a um périplo por países do Oriente Médio, como Israel, Palestina, Síria, Jordânia e Egito, numa missão de paz entre o Hamas e Israel. Se, em outros continentes, houvesse demandas pela presença do ministro brasileiro para tratar de temas variados nas áreas de defesa, meio ambiente, contatos com os sul-americanos ou com os países do Hemisfério Sul, não haveria problema de quadros qualificados.O modelo adotado pelo governo brasileiro criou a figura de vários chanceleres. No início do mês, o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, atropelou o Itamaraty e se reuniu com a equipe do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, para os primeiros contatos diplomáticos entre os dois países. Tratou de temas caros à diplomacia nacional, como alianças comerciais e militares. Antes, Mangabeira reuniu-se com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e seus principais ministros, para tratar de acordos na área de defesa e da ciência e tecnologia. Em ambas as ocasiões, ele estava autorizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.Na Conferência de Poznan, na Polônia, no fim do mês, incentivados pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, técnicos ambientalistas negociaram verbas para o Fundo Amazônia com a Alemanha e a Noruega e prometeram metas de redução de emissão de gás carbônico por parte do Brasil sem passar pelo crivo das Relações Exteriores. Assim como Mangabeira, Minc e os técnicos do Meio Ambiente estavam autorizados por Lula a fazer os acordos. Nas negociações humanitárias para a liberação de reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), entre eles a ex-senadora Ingrid Betancourt, o governo mandou para lá o professor Marco Aurélio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência. Garcia tem cuidado dos contatos do Brasil com os governos de esquerda e nacionalistas de Venezuela, Bolívia e Equador.Também costuma participar das negociações com o governo de Raúl Castro, em Cuba. No Itamaraty, nem os recém-egressos do Instituto Rio Branco duvidam que quanto mais canais de interlocução do Brasil com o exterior, maior o risco de confusões na execução da política externa. O ano de 2008 fechou com registros claros de investidas do ministro Mangabeira Unger que contrariam a linha seguida pelo Itamaraty nos últimos seis anos e que, mesmo assim, tiveram o aval do presidente Lula. O ano de 2009 começa com um balaio de pelo menos quatro interlocutores na área internacional e duas linhas que se chocam em um ponto de extrema delicadeza - a relação do País com os Estados Unidos.Além do próprio Lula que, em tese, definiu a atual política externa e a executa por meio de uma ativa diplomacia presidencial, estão neste cesto: o chanceler Celso Amorim, responsável pelos grandes temas multilaterais e pela alavancagem do Foro Bric (Brasil, Rússia, Índia e China); o secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, que toca a cooperação Sul-Sul; Garcia, que gere as relações do Brasil com os líderes de esquerda da América Latina; e Mangabeira, que se autoproclama a conexão do Brasil com a futura administração de Obama.Há ainda outros dois que, embora circunscritos em suas áreas de ação, chegaram a se confrontar com as posições do Itamaraty recentemente e prometem dar trabalho para a diplomacia - os ministros Nelson Jobim, da Defesa, e Carlos Minc, do Meio Ambiente.O maior problema de ter tantos canais de interlocução com o exterior está na falta de coordenação entre eles. Sem isso, tendem a se encavalar e a criar confusões, afirma um diplomata. Para ele, não se pode esperar coordenação na política externa de um "governo descoordenado" em qualquer área há seis anos. TERRORISMOUm exemplo de trombada surgiu na semana retrasada, quando Garcia acusou Israel de cometer "terrorismo de Estado", por seus ataques militares desproporcionais à Faixa de Gaza. Sua declaração surgiu no momento em que Amorim preparava a jornada ao Oriente Médio em favor do cessar-fogo imediato e da retomada das negociações - iniciativa que, a rigor, faz parte da estratégia para alçar o País a todos os foros internacionais de relevância. Um dia antes, em comunicado, o PT usara o mesmo adjetivo e acrescentara que as ações de Israel assemelhavam-se à "prática típica do exército nazista". Israel não reagiu oficialmente, na avaliação de diplomatas experientes em questões do Oriente Médio, porque não quer gerar uma nova aresta. Além do grande número de chanceleres, o partido do presidente também dá palpites na política externa.

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