Chance de Aécio é 'ter Serra como candidato ao Senado'

Entrevista com o cientista político da USP, Celso Roma

Gabriel Manzano, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2013 | 23h12

SÃO PAULO - Confirmado como presidente nacional do PSDB, o senador Aécio Neves (MG) tem pela frente um cenário difícil em sua caminhada rumo à Presidência da República em 2014: precisa unir o partido nacionalmente, conquistar o eleitorado paulista e contar com a deterioração da economia, para abrir brechas no enorme favoritismo da presidente Dilma Rousseff. A avaliação é do cientista político Celso Roma, da USP - para quem ganhar o eleitorado paulista depende muito "do apoio de José Serra na forma de candidatura à vaga de senador (por São Paulo)".

Roma entende que o novo presidente tucano só pode equilibrar um pouco o jogo se garantir essa "maioria expressiva nos dois maiores colégios eleitorais, São Paulo e Minas". Ele lembra que, mesmo inferiorizados, os tucanos levaram a disputa ao segundo turno em 2006 e 2010. Marina Silva, adverte o professor, "não tem estrutura partidária". Eduardo Campos "não é candidato de oposição". E o problema maior é a força da presidente Dilma. "Gasto público em expansão e consumo das famílias em alta criam dividendos eleitorais. Eleitores satisfeitos retribuem com voto o emprego e a renda. Este governo não tem incentivo político para mudar o rumo da economia". A entrevista:

Aécio tem condições de unir o PSDB e concorrer com chance em 2014?

Ele tem condições de forçar e disputar com a presidente Dilma Rousseff o segundo turno em 2014, caso obtenha votação expressiva nos dois maiores colégios eleitorais do país: São Paulo e Minas Gerais. Os mineiros tendem a votar em peso em seu conterrâneo. Os paulistas também devem manter a tendência de votar em um candidato da oposição. Mas, para ganhar o eleitorado de São Paulo, obtendo ampla vantagem nas urnas, Aécio precisa do apoio de Serra, na forma da candidatura à vaga de senador pelo Estado, em um esforço conjunto para fortalecer o PSDB nos planos nacional e local.

No momento, Marina Silva está à frente dele nas pesquisas. Ela é um obstáculo sério?

Aécio Neves tem o que Marina Silva não tem: estrutura partidária para concorrer à Presidência da República. O PSDB polarizou com o PT as últimas cinco eleições presidenciais. Mesmo em crise, alijado do governo e enfrentando adversários com alto índice de popularidade, os tucanos levaram as eleições de 2006 e 2010 para o segundo turno. Por outro lado, o movimento da Rede Sustentabilidade se esforça para alcançar o número de assinaturas necessárias para viabilizar o registro do partido político junto à Justiça Eleitoral. O grande número de votos obtidos por Marina Silva na eleição passada não se traduziu em apoio popular na estratégia para viabilizar a criação do partido. A ex-senadora só conseguiu o CNPJ da legenda por meio de uma decisão da Justiça.

O governador Eduardo Campos, do PSB, tem tentado abrir frentes no eleitorado do Centro-Sul. Ele pode enfraquecer a estratégia tucana?

Aécio Neves pode se apresentar como o candidato da oposição. Eduardo Campos não. O governador de Pernambuco é um candidato virtual no sentido estrito do termo. O PSB não tem divergências ideológicas com o PT. No Congresso, deputados e senadores socialistas votam a favor de projetos de interesse do governo Dilma. O que o PSB almeja com o balão de ensaio é ocupar mais espaço de poder, depois que o PMDB elegeu os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, fortaleceu em sua convenção nacional a aliança com o PT e pavimentou a indicação do vice na chapa para 2014. Ainda de que forma não intencional, a candidatura de Eduardo Campos pode ajudar a oposição, dividindo com a candidata à reeleição os votos da região Nordeste, onde se concentram os eleitores governistas -- um obstáculo à vitória dela no primeiro turno.

Dilma tem alta aprovação e uma máquina governamental - e eleitoral - competente. Como Aécio pode neutralizar essas vantagens?

De fato, o maior desafio de Aécio Neves na corrida presidencial é a presidente Dilma. Por várias razões. A gestão dela é aprovada pela maioria dos eleitores. Ainda que isso seja um erro, como se revelará no médio prazo, a política econômica do governo continuará privilegiando o mercado interno. Gasto público em expansão e consumo das famílias em alta criam dividendos eleitorais. Eleitores satisfeitos retribuem com voto o emprego e a renda, que, por sua vez, mantêm as expectativas de consumo. Este governo não tem incentivo político para mudar o rumo da economia. Eleições ocorrem regularmente, de dois em dois anos.

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