Chamada às pressas, eleita estava de malas prontas para viagem

Lula mostra poder de influência e sugere que sucessora cuide da formação do governo antes que vire uma crise

João Domingos, de O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2010 | 20h33

BRASÍLIA - A presidente eleita, Dilma Rousseff, já estava com as malas dentro do carro para uma viagem de descanso quando foi chamada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto, ontem pela manhã. Ao recebê-la, Lula disse que estava preocupado com as notícias sobre a montagem do governo, consequência da disputa por cargos entre os partidos da coligação.

 

Lula sugeriu a Dilma que tomasse o processo de formação do governo exclusivamente em suas mãos, para evitar que se transforme numa crise política antes mesmo da posse, em 1º de janeiro. Porque, segundo o presidente, já tem governo montado e governo destituído. Lula disse ainda que sabe o que ocorre nesses momentos, em que uma porção de lados tenta garantir o espaço num futuro governo, à base de fofocas e de todo tipo de rasteiras possíveis.

 

Viagem

 

Assim, embora tenha dito que em sua cabeça funciona a tese do "rei morto, rei posto", para se referir ao momento de transição na chefia do Executivo, Lula acabou por revelar que ainda está bem vivo e com plena influência sobre a sucessora. Ele a fez atrasar a viagem e a conceder, a seu lado, uma entrevista coletiva cujo objetivo foi um só: acalmar os partidos aliados e dizer que montagem de ministério agora não vale.

 

"Eu tenho acompanhado - neste domingo, segunda e terça - a imprensa, e eu já vi governo montado, já vi governo destituído, eu já vi cargo indicado para tudo quanto é lado", disse Lula antes de qualquer pergunta dos repórteres. Acrescentou sua experiência para falar dos problemas que surgem durante a montagem da equipe de auxiliares.

 

"Eu fui eleito em 2002 e tenho a exata noção da sensação da montagem de um governo. Você se levanta pela manhã, você vê um jornal, está a fotografia de uma pessoa que você nunca pensou em colocar no governo, mas está lá como escolhida; ou uma pessoa que você quer colocar, que está lá, destituída. Ou seja, é um samba maluco, alucinante, a quantidade de informações." Lula acrescentou para os jornalistas o que falou a sós com Dilma.

 

"Possivelmente, alguém passa para vocês, alguém vaza, ou alguém que tem interesse que alguém não seja (escolhido), já começa a queimar um daqui, já começa a enaltecer outro." De acordo com informação de bastidores, Lula considerou falha tanto a atitude de Dilma quanto a de seus principais colaboradores - o presidente do PT, José Eduardo Dutra, o secretário-geral do partido, José Eduardo Martins Cardozo, e outros petistas, como Marco Aurélio Garcia -, que na segunda-feira fizeram uma reunião com a eleita para tratar da fase de transição de governo e não chamaram ninguém do PMDB.

 

Grande erro

 

No dia seguinte, diante de um PMDB muito irritado, Dilma anunciou a escolha do seu vice, Michel Temer, para coordenar a equipe de transição. Na opinião do atual presidente, de acordo com informação de bastidores, a reunião sem ninguém do PMDB foi um grande erro. E erros desse tipo dão margem para o aumento das fofocas, brigas e rasteiras num momento muito sensível, que é o da montagem do governo.

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