Cerimônia da posse permite encontros inusitados em Brasília

Na cerimônia de posse dos 513 deputados nesta quinta-feira na Câmara, parlamentares investigados - como mensaleiros e sanguessugas - misturavam-se a celebridades, novatos desconhecidos e veteranos, além de milhares de familiares e amigos convidados. Entre os polêmicos, estavam presentes o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf (PP-SP), o ex-ministro Antonio Palocci, o estilista Clodovil Hernandez e Roberto Jefferson (PTB-RJ), cassado em 2005 logo depois de ter denunciado o mensalão. Paulo Maluf não demonstrou constrangimento em falar sobre as denúncias de lavagem de dinheiro e corrupção passiva que pesam contra ele. Por causa do privilégio de foro, as ações e investigações serão transferidas para o Supremo Tribunal Federal (STF). "A imunidade para quem não tem, como eu não tenho, nenhum tipo de consciência pesada, não faz diferença. Não preciso dela", declarou. "Minha vida pública é cristalina e transparente". Incansável, Paulo Maluf parecia inabalável ao responder às recorrentes perguntas sobre as acusações que enfrenta. Ao lado da mulher, Sylvia, declarou: "Sou o mais investigado, e com todo o respeito, não cabe à imprensa me julgar, mas à Justiça, e nesse sentido, sou o mais puro deste país". Já o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que caiu após o envolvimento de seu nome na quebra do sigilo do caseiro Francenildo, preferiu não dar entrevistas. No momento em que foi chamado para prestar juramento, uma tímida vaia, não consumada, se ensaiou nas galerias. Mas no plenário, onde se apinhavam os deputados, foi bastante cumprimentado. O deputado e estilista Clodovil Hernandes (PTC-SP), segundo mais votado de São Paulo, chegou à Câmara trajando um terno de gabardine de seda branco, chapéu Panamá e uma bengala - "um bastão", corrigiu - de madeira. "Um visual anos 20, para trazer de volta a decência do passado", explicava, ressalvando que se referia ao mundo, e não à Câmara dos Deputados. Indagado sobre sua posição em relação ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), perguntou: "O que é isso? Que são essas siglas?" Intensamente assediado por colegas e fãs, Clodovil definiu sua meta: "Quero fazer uma política do amor, a maldade não pode mandar em coisa alguma". Estrelas Ainda no grupo das estrelas, os maiores destaques foram a nova musa da legislatura, deputada Manuela D´Avila (PCdoB-RS) e o cantor de forró e deputado Frank Aguiar (PTB-SP). O ex-ministro e deputado Ciro Gomes (PSB-CE) enfrentou a concorrência da própria esposa, Patrícia Pillar, que distribuiu autógrafos. Aguiar, o Cãozinho dos Teclados, teve de enfrentar o assédio de funcionários, convidados e até de colegas deputados. Aguiar, cujo nome de batismo é Francineto Luz Aguiar, tirava fotos com fãs e distribuía autógrafos enquanto explicava que além de músico, também era advogado. Elegante em um vestido azul marinho com um broche da campanha de Aldo Rebelo, bolsa bege e salto alto, Manuela, a nova musa da Câmara, de 25 anos, reforçou que não gosta do título. "Nenhuma mulher da política gosta de ser tratada como um enfeite em um espaço tão importante como esse. Não vim aqui para desfilar", reagiu. "Prefiro ser identificada como a mais nova mulher eleita do País. Lamento que sejamos apenas 42 na Câmara. Rótulos como esse talvez façam as mulheres se afastarem da vida pública", completou. Manuela declarou que entre seus temas principais está a discriminação por gênero. Volta Figuras políticas que há tempos não pisavam nos tapetes do Congresso, ex-deputados cassados pelas urnas em outubro e senadores interessados na eleição da Câmara juntaram-se aos parlamentares. Entre os que há muito não apareciam, estavam dois integrantes da "tropa de choque" do ex-presidente Fernando Collor: o ex-senador Ney Maranhão (do extinto PRN) e o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), cassado em 2005 logo depois de ter denunciado o mensalão. "É uma alegria voltar à Câmara para abraçar os velhos companheiros", disse Jefferson, que visitou o gabinete da liderança do PTB, onde por mais de cinco anos comandou o partido. Ele disse que seu candidato era o petista Arlindo Chinaglia. "Não gosto de arranjos. Esta Casa não pode eleger outro morto, como o Severino Cavalcanti (PP-PE)", disse Jefferson. Manifestações individuais Em 1999, na cerimônia de sua primeira posse, o deputado Pompeu de Mattos (PDT-RS) foi posto para fora do plenário por Severino Cavalcanti, que presidia a Mesa. Motivo: estava vestido a caráter, com uma pilche (roupa típica gaúcha, com calça larga, botas e colete). Ele fez protestos, mas não convenceu Severino de que aquele é um traje de gala. Nesta quinta, porém, pôde andar com sua pilche, sem que ninguém o incomodasse. "Eu a uso como traje nas ocasiões especiais", disse Pompeu. "Na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul é o traje oficial". O novato William Woo (PSDB-SP), sambou de felicidade no Salão Verde, em frente ao Plenário ao ritmo das palmas de mais de vinte convidados, entre familiares e amigos, que o acompanhavam. O ex-vereador tucano, que é engenheiro mecânico por formação, ganhou um banho de serpentina de seus parentes - um deles usava uma máscara com o rosto do deputado. Enquanto dançava, explicou que se tratava da "dança da vitória da representação do povo".

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