REUTERS/Ruben Sprich
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'Cérebro' da Lava Jato na Suíça pede exoneração

Em carta enviada a seus superiores, Stephan Lenz informou que abandonará suas funções no fim do ano em protesto à falta de recursos e de estratégia por parte do Procurador-Geral suíço

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 14h47

GENEBRA - O procurador suíço Stephan Lenz, que lidera as investigações sobre o esquema de corrupção da Petrobrás na Suíça, anunciou que deixará o Ministério Público do país europeu. Em uma carta enviada nesta semana a seus superiores, Lenz informou que abandonará suas funções no fim do ano em protesto à  falta de recursos e de estratégia por parte do Procurador-Geral da Suíça, Michael Lauber.

Conhecido pelos procuradores da Lava Jato no Brasil, Lenz é considerado no MP suíço como o “cérebro” das investigações sobre o caso brasileiro. Dois anos depois de iniciar o processo na Suíça, o trabalho conduzido por ele já resultou em mais de mil contas bloqueadas com cerca de US$ 800 milhões. Desse total, aproximadamente US$ 190 milhões já foram repatriados ao Brasil. Um dos aspectos mais importantes da cooperação suíça tem sido o envio ao Minsitério Público brasileiro de milhares de páginas de extratos bancários do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e de outros suspeitos.

Passaram pela mesa de Lenz casos como o de Cunha, do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, do ex-ministro do Turismo Henrique Alves (PMDB-RN) e todo o dossiê de cerca de duas mil páginas relativas aos extratos bancários de empresas de fachada usadas pela Odebrecht.

O anúncio da saída de Lenz foi recebido como um golpe pela Justiça suíça. Na carta, ele criticou abertamente a maneira como o MP do país tem lidado com os procuradores sem garantir nem reconhecimento, salários adequados ou recursos para realizar o trabalho.

O procurador ainda acusa o seu chefe de “falta de estratégia”, o que teria levado os demais profissionais a uma crise, descontentamento e “muitas demissões”. Lenz também expôs sua insatisfação pela forma como o MP trata de “grandes casos complexos”, como tem sido o da Petrobrás. Segundo ele, os processos ainda estariam ocorrendo diante da “resistência” de outras forças dentro da Suíça.

O procurador também ataca o nível salarial dos procuradores no país europeu, alertando que eles têm hoje uma renda muito inferior aos advogados da defesa e são obrigados a trabalhar “por longas horas”. Lauber teria reduzido os salários de parte de seus procuradores. Ainda que a medida não atinja Lenz, ele decidiu protestar e alertar que a iniciativa representaria uma “degradação” das funções dos fiscais. Para ele, a essa incerteza se soma ao fato de que um procurador hoje não sabe se está agindo com pessoas “do lado certo”.

Ao Estado, o Ministério Público da Suíça sugeriu que o pedido de exoneração não teria um impacto para as investigações sobre a Odebrecht e outros casos da Lava Jato. “O processo da Petrobrás é complexo e é conduzido por uma força-tarefa que consiste de vários procuradores em várias localidades”, indicou o MP. De acordo com Berna, a força-tarefa suíça sobre a Lava Jato inclui analistas forenses, analistas de tecnologia da informação, especialistas em lavagem de dinheiro, advogados e especialistas em corrupção internacional. Segundo o MP, a força-tarefa ainda é reforçada pela presença da Polícia Federal suíça, além do Escritório Federal de Justiça. 

A saída de Lenz foi considerada pelo MP no Brasil como "uma péssima notícia" e deixou procuradores preocupados com o ritmo futuro da colaboração entre suíços e a Lava Jato. Lenz era quem conduzia o processo e, desde março, o procurador-geral, Rodrigo Janot, trabalhava para criar uma força-tarefa conjunta entre o Brasil e Suíça. 

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