Centrão quer aproveitar crise para mudar articulação política de Bolsonaro

Enquanto presidente ressuscita facada para desviar foco da CPI, aliados pragmáticos acham que governo precisa contemplar o Senado

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 14h56

Dirigentes de partidos do Centrão esperam que a internação de Jair Bolsonaro e o recesso do Congresso, nos próximos dias, sirvam como pausa para um freio de arrumação política. Após a ofensiva de Bolsonaro contra ministros do Supremo Tribunal Federal e ameaças golpistas, o presidente foi instado a adotar o estilo “Jairzinho paz e amor”, que não durou 48 horas. Agora, o discurso de aliados mais ideológicos para desviar o foco da crise é puxado pela hasthag #QuemMandouMatarBolsonaro. Pragmático, o Centrão avalia que não se vence a tempestade no gogó e quer um nome do Senado como ministro, para ajudar na articulação do governo.

O presidente tem usado sua doença como mais uma arma contra o PT e seus adversários, ao lembrar da facada sofrida em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral. Além disso, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) disse não entender os critérios usados pelo Judiciário para quebrar o sigilo telefônico de “algumas pessoas” e “proteger outras”. Nesse capítulo, voltou à cena a acusação de que Adélio Bispo – autor da facada em Bolsonaro – foi financiado por forças ocultas da esquerda para cometer o atentado.

As quebras de sigilo telefônico criticadas por Flávio estão relacionadas a uma nova frente de investigação aberta pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes sobre o que ele classificou como “organização criminosa” envolvendo o “gabinete do ódio” instalado no Palácio do Planalto. Ao determinar a abertura do inquérito, Moraes destacou que o grupo na mira da Polícia Federal tem “posição privilegiada” no convívio com Bolsonaro e conta com auxílio de parlamentares – entre eles filhos do presidente – para pregar “o retorno do Estado de Exceção”.

Pressionado pela CPI da Covid, por denúncias de corrupção e pelo crescente desgaste de imagem, agravado por protestos de rua pedindo o impeachment, Bolsonaro ouviu de aliados, dias antes da internação, o conselho para “submergir” e fazer mudanças no ministério.

Uma das trocas sugeridas para apaziguar os ânimos seria a nomeação de um senador para o “núcleo duro” da equipe. No diagnóstico desses interlocutores, a estratégia diminuiria as resistências à indicação de André Mendonça para ocupar uma cadeira no Supremo. Mendonça ainda precisa ter o nome aprovado pelo Senado e será sabatinado pela Casa em agosto, após o recesso.

Um dos líderes do Centrão chegou a dizer ao presidente que, se cada um dos Poderes voltar para “sua casinha”, será possível virar a página da crise. Apesar do quadro de desmanche do governo, dirigentes de partidos próximos a Bolsonaro afirmam que a eleição de 2022 não está perdida para o Planalto, sob o argumento de que a pandemia vai arrefecer e haverá melhorias no cenário econômico e social.

Bolsonaro, porém, não quer substituir o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, seu amigo de mais de 40 anos, apesar dos apelos de aliados, que dão como certa a queda do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR). Ex-ministro da Saúde, Barros teve o nome citado pelo deputado Luiz Miranda (DEM-DF) em depoimento à CPI da Covid. Até agora Bolsonaro não desmentiu que atribuiu a Barros o “rolo” nas negociações para compra da vacina indiana Covaxin.

Na prática, o articulador político do Planalto tem sido Flávio, o filho “01”. Foi ele que, nesta quinta-feira, 15, encerrou postagem nas redes sociais com a hasthag #QuemMandouMatarBolsonaro. O contra-ataque do governo para sair das cordas passa por criar um novo fato, que, neste caso, une a facada, a esquerda, o mártir e, agora, as eleições de 2022.

“Bolsonaro alimenta o vitimismo para promover uma cortina de fumaça e se distanciar da CPI da Covid, da corrupção e do genocídio. Em vez de se preocupar com sua recuperação, quer capitalizar a compulsão pela morte”, disse o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). Na avaliação de Valente, um dos deputados que deixaram o PT em 2005, na esteira do escândalo do mensalão, Bolsonaro aposta em fake news e no confronto permanente para sobreviver.

Adélio Bispo, o homem que desferiu a facada contra Bolsonaro, foi filiado ao PSOL, mas na época do atentado já havia se desligado do partido há anos. A investigação da Polícia Federal nunca confirmou a tese bolsonarista de que Adélio, considerado inimputável por insanidade mental, agiu a mando de alguém.

A exemplo do que ocorre na acusação feita pelo presidente ao sustentar que as eleições de 2014 e de 2018 foram fraudadas, Bolsonaro diz não ter provas de nada. Mas a simples tese da conspiração serve para construir a narrativa do salvador da Pátria sacrificado, que embala a campanha à reeleição. Como na fábula do sapo e do escorpião, Bolsonaro sempre seguirá a sua natureza. 

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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