Capítulo 36

Centrão é escalado para desconstruir Moro e barrar avanço de CPI das Fake News

Bloco de partidos já é considerado o fiel da balança para a estabilidade do governo Bolsonaro, que negocia cargos com siglas como Progressistas, Republicanos, Solidariedade e DEM

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 15h33

Caro leitor,

A CPI das Fake News virou o novo alvo de ataque do Palácio do Planalto. Além de distribuir cargos em repartições com orçamento vistoso e visibilidade política para montar uma base aliada no Congresso, impedindo eventual processo de impeachment do presidente Jair Bolsonaro, o Planalto age para que o Centrão barre investigações na CPI.

O bloco que tem em seu “núcleo duro” partidos como DEM, Progressistas, PL, Republicanos e Solidariedade é considerado o fiel da balança para a estabilidade do governo. Nessa correlação de forças, pode mudar o rumo da CPI se pender favoravelmente para o lado do Planalto na comissão, hoje com maioria oposicionista.

Após deixar a Esplanada acusando Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro deu sinais de que tem interesse em comparecer à CPI das Fake News no Congresso. A comissão é mista, reúne deputados e senadores e Moro possui ali uma bancada a seu favor.

O Centrão, porém, já se prepara para a revanche e fará de tudo para desconstruir o ex-juiz da Lava Jato, que levou o mundo político ao banco dos réus. Nesse caso, contará com o apoio do PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi condenado e preso após investigações da Lava Jato.

Os petistas já apresentaram requerimento solicitando a convocação de Moro. Ao contrário do Centrão, no entanto, o PT pretende usar o ex-ministro para jogar os holofotes sobre a crise no governo Bolsonaro.

As sessões da CPI da Fake News estão suspensas por causa da pandemia do coronavírus, mas o pedido de convocação de Moro deverá ser aprovado assim que os trabalhos forem retomados. Oito deputados do PSL, aliados de Bolsonaro, entraram nesta terça-feira, 5, com mandado de segurança no Supremo para solicitar a anulação dos trabalhos da comissão, além da troca de seu presidente, o senador Ângelo Coronel (PSD-BA). O argumento é o de que a CPI das Fake News se transformou em um fórum para “deslegitimar não apenas o processo eleitoral dos membros do PSL, incluindo-se o Sr. Presidente da República, mas também sua atuação, em clara oposição ao pleito de 2018”.

Na prática, o Planalto vai medir a fidelidade dos novos parceiros na CPI e esse índice servirá como moeda de troca. Entraram na lista de traidores preparada pelo governo, por exemplo, parlamentares que votaram a favor da prorrogação da CPI.

As nomeações já começaram a ser publicadas no Diário Oficial da União, como mostrou o colunista Marcelo de Moraes, nesta quarta-feira, 6, no BR Político. A indicação de Fernando Marcondes de Araújo Leão para comandar o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) foi feita pelo Progressistas do senador Ciro Nogueira (PI).

negociações em andamento para outras “joias da coroa”, como a presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e diretorias da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), comandada pelo DEM.

Na lista dos postos cobiçados constam, ainda, cargos no Banco do Nordeste, no Porto de Santos e várias superintendências do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Até mesmo a cadeira do ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, está em jogo.

Embora o depoimento de Moro à Polícia Federal, no sábado, tenha sido considerado no Planalto como “uma tempestade em copo d’água”, há receio de que a CPI possa jogar mais gasolina na fogueira. Na avaliação de dois auxiliares diretos de Bolsonaro, o ex-ministro não apresentou provas do que dizia. Moro afirmou que, no início de março, Bolsonaro insistiu com ele para mudar a cúpula da PF no Rio. Segundo o seu relato, das 27 superintendências o presidente queria “apenas” a do Rio, além da direção-geral da corporação.

O Ministério Público investiga a suspeita de que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e seu então assessor Fabrício Queiroz tenham organizado um esquema de “rachadinha” para desviar parte dos salários de auxiliares. A apuração é relativa ao período em que o filho “zero um” do presidente era deputado estadual no Rio.

O Planalto também se preocupa com o inquérito das fake news, que tramita no Supremo desde março de 2018. O relator desse processo é justamente o ministro do STF Alexandre de Moraes, o mesmo que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF, sob a justificativa de desvio de finalidade.

É justamente nesse capítulo que o governo quer ajuda ainda maior do Centrão. Como mostrou o Estado, o inquérito – aberto para investigar ameaças, ofensas e calúnias dirigidas a ministros do STF e suas famílias – identificou empresários bolsonaristas financiando ataques contra ministros da Corte nas redes sociais. Não é só: o mesmo grupo teria se aliado a parlamentares aliados de Bolsonaro para organizar manifestações que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo, como a do último domingo.

Em mais de uma ocasião, a CPI das Fake News pediu o compartilhamento de informações sobre esse inquérito, mas a Corte negou a solicitação. Em outra frente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, entrou com ação no Supremo para impedir a prorrogação da CPI. O pedido foi negado pelo ministro Gilmar Mendes.

O temor do Planalto, agora, é o de que tanto a CPI quanto o Supremo direcionem sua artilharia para o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), comandante do chamado “gabinete do ódio”, e o associe à organização das manifestações em defesa da intervenção militar no País. Além de Moro, a CPI também quer convocar Carlos para prestar depoimento. Em conversas reservadas, auxiliares de Bolsonaro dizem que o vereador não tem “papas na língua” e, se for à CPI, a crise política pode se agravar ainda mais. A conferir.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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