Amanda Perobelli / Reuters
Amanda Perobelli / Reuters

Centrão de Bolsonaro já foi de Lula... Pode voltar a ser? Veja o cenário

Com novos rostos, bloco aliou-se a Bolsonaro sem cerimônias depois de ignorá-lo na eleição de 2018 e de ter passado todo o período de governo do PT no poder, como base de apoio de Lula

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 11h27

BRASÍLIA - O Centrão é o Centrão. Suprapartidário, o bloco nunca deixou de ser governo. E nada indica que está disposto a deixar de ser. Ex-deputado “dissidente” em bancadas do bloco informal, o presidente Jair Bolsonaro sabe bem que a ideologia desses partidos se resume a cifras, cargos e palanques.

Com novos rostos, o Centrão aliou-se a Bolsonaro sem cerimônias depois de ignorá-lo na eleição de 2018 e de ter passado todo o período de governo do PT no poder, como base de apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Renovada com a anulação das condenações criminais de Lula pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, a polarização eleitoral de Bolsonaro com o lulismo poderá forçar o grupo a se dividir entre um e outro. Ou se dispersar.

Pesquisa de opinião publicada pelo Estadão no sábado, dois dias antes da decisão que reabilitou Lula como pré-candidato, o mostrou como único entre dez nomes a ter mais capital político do que Bolsonaro. O Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) mostrou o petista com maior potencial de voto: 50% dos entrevistados disseram que poderiam votar ou com certeza votariam nele, enquanto 44% o rejeitaram. No caso de Bolsonaro, o potencial de voto esbarrou em 38%, enquanto 56% não votariam nele em qualquer hipótese.

Agora, Bolsonaro tem uma sombra com lábia e experiência política, que levou ao limite o presidencialismo de coalização. Se Bolsonaro e Lula têm, cada um, seus 30% do eleitorado, restam outros 40% pendulares que poderiam ir para um por rejeição ao outro, anulando as tentativas de outros partidos de centro-direita e centro-esquerda viabilizarem alternativas como a terceira via.

Duas reações à decisão de Fachin soaram como sinais de que o grupo acompanha os passos do petista e tomará decisões futuras, como de costume, seguindo não só com interesses fisiológicos imediatos, mas guiado pelo faro de poder.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), disse que Lula “pode até merecer a absolvição” na Operação Lava Jato - embora Fachin não tenha inocentado o ex-presidente, apenas anulado o processo por considerar o ex-juiz Sergio Moro inapto para atuar no caso. Já o deputado Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos, passou a tratar Lula como nome no páreo: “Ele é um candidato forte”. Ambos são próceres do bloco que dá as cartas no Congresso atualmente.

 As falas não significam que Progressistas e Republicanos vão abandonar Bolsonaro. O Progressistas trabalha para emplacar um ministro, preferencialmente, na Saúde. O Republicanos levou o Ministério da Cidadania, que cuida dos benefícios como Bolsa Família e Auxílio Emergencial. No Palácio do Planalto, a aliança com o Centrão é classificada como “excepcional” - embora nenhum ministro se arrisque a dizer o quão duradoura será.

O exemplo mais nítido da instabilidade dos acordos com o Centrão ocorreu em 2016. O bloco se desgarrou do petismo quando a ex-presidente Dilma Rousseff deu sinais de que não resistiria ao processo de impeachment, enquanto o então vice-presidente, Michel Temer (MDB), indicou que abriria o orçamento e os cargos da Esplanada aos parlamentares do Centrão novamente. Os ministérios e as emendas, na ocasião, não bastaram.

Há um outro fator. Reservadamente, integrantes do mercado financeiro fizeram chegar aos parlamentares do Centrão reclamações sobre a conduta de Bolsonaro e as sucessivas crises geradas por ele. Buscam estabilidade. A última foi a troca do presidente da Petrobrás. Para políticos experientes, eles podem engrossar a fila dos descontentes com o ex-capitão do Exército.

Bolsonaro buscava a polarização. O ambiente é familiar ao presidente. Foi nessa situação - apesar da troca de Lula por Fernando Haddad em 2018 - que ele se vendeu como o único antipetista e chegou ao Planalto. Só não contava que ela retornasse no momento em que se vê: às voltas com a falta de vacinas contra o novo coronavírus, com alta de casos e mortes, sem conseguir pagar o auxílio emergencial, com 13,4 milhões de desempregados, em litígio com governadores, sem a Lava Jato e desafiado a dissipar um novo sentimento inexistente há três anos: o antibolsonarismo, que cresce com seus rompantes autoritários e trapalhadas de gestão no poder. A luta agora entre Bolsonaro e Lula é pelo centro.

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