Centrão adota política de ‘morde-e-assopra’ com Bolsonaro e ala do MDB se aproxima de Lula

Nenhum dos atores desta temporada quer deixar o ego na porta

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 15h50

Caro leitor,

Uma imagem, na política, vale mais do que mil palavras. Nesta quinta-feira, 25, um dia depois de ter feito um discurso interpretado como ultimato ao governo, o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), foi ao Palácio do Planalto desfazer o “mal estar” com o presidente Jair Bolsonaro. Na prática, Lira disse que não quis dizer o que disse quando lembrou que o Congresso tem o poder de aplicar “remédios políticos amargos, alguns fatais” para o inquilino do Planalto.

“Não tem problema nenhum entre nós. Zero problema”, amenizou Bolsonaro após o encontro. “O que nós queremos é buscar uma maneira de contratar mais vacinas”. O presidente foi aconselhado por sua equipe de comunicação a acompanhar Lira até o carro para mostrar que não há estremecimento na relação entre os dois. “É um velho amigo de Parlamento”, resumiu Bolsonaro, que já foi do Centrão.

Nos bastidores, porém, a avaliação predominante entre deputados e senadores ouvidos pelo Estadão é a de que o Centrão não tardará a abandonar o chefe do Executivo, se perceber que sairá na foto como sócio de um fracasso. No momento em que o Brasil contabiliza a trágica marca de mais de 300 mil mortes pela covid-19, esse bloco de partidos é pragmático: ou Bolsonaro confere autonomia para que o grupo dê as cartas ou vai largá-lo à própria sorte. “No Nordeste, a gente diz que vai com o amigo até a beira da cova, mas não entra nela”, resumiu um importante integrante do Centrão, sob a condição de anonimato.

Horas após o presidente anunciar, na quarta-feira, 24,  a criação de um comitê para coordenar as ações de combate ao coronavírus – um ano depois de instalada a pandemia –, ficou evidente para a cúpula do governo que o Centrão vai apresentar uma fatura alta. Na lista da cobrança para continuar aliado está a troca de ministros, a começar pelo chanceler Ernesto Araújo. O titular das Relações Exteriores, aliás, tomou café da manhã com Lira, nesta quinta, antes de o deputado seguir para o Planalto.

Da ala ideológica do governo, Araújo tenta se manter à frente do Itamaraty. Lira chegou a afirmar, na quarta-feira, que “posições político-partidárias, ideológicas, não vão ser o norte para a gestão dessa crise” ao criticar o chanceler pelo que classificou como “falta de diálogo” com Estados Unidos, China e Índia para a compra de vacinas.

Nas redes sociais, seguidores de Bolsonaro passaram a  carimbar o presidente da Câmara – eleito para o cargo sob a chancela do Planalto – com o rótulo de “traidor”. Embora tenha assegurado não haver qualquer rusga com o chefe do Executivo, Lira não falou de improviso ao alertar, no plenário da Câmara, que iria “apertar um sinal amarelo para quem quiser enxergar”.

O líder do Centrão leu o discurso preparado sob medida para dar um recado, com endereço certo, quando destacou os tais remédios amargos, que podem levar à morte. Foi porta-voz de empresários com quem esteve na segunda-feira, em São Paulo, junto com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Na política de “morde-e-assopra”, Lira não mencionou a palavra impeachment e nem precisava. Há mais de 60 pedidos desses repousando sobre a sua mesa na Câmara. Hoje o Centrão avalia que não é o momento de esticar mais essa corda nem de investir em CPI da Pandemia para desgastar ainda mais Bolsonaro. Amanhã, ninguém sabe.

Dispostos a criar um novo polo de oposição a Bolsonaro, líderes do MDB e do Solidariedade, na outra ponta, têm se aproximado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ideia é conquistar apoios para formar uma espécie de centro expandido, agora de mãos dadas com a esquerda, e disputar a eleição de 2022 ao Planalto. O movimento ainda divide esses partidos e também o PT de Lula, mas há articulações políticas promovidas longe dos holofotes, diante do agravamento da pandemia.

No Congresso, o grupo que quer desbancar o Centrão comemorou o vaivém de Lira e viu ali um indicativo de que, mais adiante, poderá atrair desgarrados do bloco, principalmente no Nordeste.

As conversas para criar uma alternativa a Bolsonaro não são de hoje, mas ganharam força nos últimos dias, depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin anulou as sentenças impostas a Lula pela Lava Jato. Além disso, na terça-feira, 23, a Segunda Turma da Corte considerou que o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro foi parcial ao condenar o ex-presidente no caso do triplex.

Dirigentes do  Solidariedade e da Força Sindical conversaram com Lula, por videoconferência, antes mesmo desses veredictos. Disseram ao petista que, para ganhar a corrida à Presidência, será preciso “juntar Deus e o diabo”. Nada de fazer aliança de “nós com nós mesmos”. Ele concordou.

Na campanha de 2002, Paulo Pereira da Silva – hoje presidente do Solidariedade – foi candidato a vice na chapa de Ciro Gomes (PDT) ao Planalto. Agora Paulinho, como é conhecido, quer uma frente com Lula e acha possível agregar o PDT. A hipótese é descartada por Ciro. “Eu não vou deixar o Lula ganhar essa na lambança”, disse o ex-ministro ao Estadão. 

No MDB, o senador Renan Calheiros (AL) e seus colegas Eunício Oliveira e Roberto Requião, que perderam as últimas eleições, também conversaram com Lula sobre o jogo de 2022. Aliado do PT, Renan tratou recentemente da construção desse novo polo de centro em jantar com o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), que está prestes a deixar o DEM e se filiar ao MDB.

Maia foi ao Twitter elogiar Lula justamente quando ele fazia um pronunciamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no último dia 10, com um aceno ao centro. Não foi só: logo depois, Maia observou que, apesar dos obstáculos, pode ocorrer um novo casamento do MDB com o petista. Para completar, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse que Lula “nunca foi de esquerda” e “nem é um perigo”.

Em público, porém, esse assunto é proibido. Além de provocar divergências internas – o MDB gaúcho, por exemplo, não pode nem ouvir falar em Lula e uma ala do PT ainda trata o partido de Michel Temer como “golpista” ­– , a preocupante crise do País impede a exposição de conversas sobre 2022.

“Ninguém vai chegar a 2022 se não passarmos por 2021”, diz um manifesto da cúpula do MDB, intitulado “Frente Nacional pela Vida”. Lançado nesta semana por ocasião dos 55 anos do MDB, comandado pelo deputado Baleia Rossi (SP), o documento defende uma “trégua” nos embates entre Bolsonaro, governadores, prefeitos e parlamentares.

Em 1985, pouco antes de astros da música pop gravarem “We Are the World”, com o objetivo de arrecadar fundos para o combate à fome na África, o maestro Quincy Jones perseguiu a “trégua” com um gesto inusitado. Empenhado em unir as estrelas mundiais – com Michael Jackson à frente –, em torno da missão mais importante daquela temporada para salvar vidas, o maestro pregou uma placa do lado de fora do estúdio. “Deixe seu ego na porta”, dizia a mensagem afixada ali. Não seria isso que estamos precisando na política?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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