Alan Santos/PR
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Centrais sindicais divulgam manifesto contra Bolsonaro e reclamam que Fiesp 'passa pano'

Documento, firmado por 10 entidades, diz que presidente 'gera confrontos diários' e pede harmonia entre Poderes 

Lauriberto Pompeu, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2021 | 14h18

BRASÍLIA - Dez centrais sindicais divulgaram nesta segunda-feira, 30, um manifesto contra o presidente Jair Bolsonaro e a favor da harmonia entre os Três Poderes. "O próprio presidente se encarrega pessoalmente de gerar confrontos diários, criando um clima de instabilidade e uma imagem de descrédito do Brasil", diz o documento assinado pela Força Sindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT), União Geral dos Trabalhadores (UGT) e outras representações trabalhistas.

O texto é um contraponto ao manifesto que é articulado pela Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Febraban, que também prega a pacificação dos Poderes, mas não cita Bolsonaro. "O documento passa pano. Fala para os Três Poderes, como se os Três Poderes estivessem prejudicando o País. Não é verdade, quem está prejudicando o País é Bolsonaro", afirmou o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, conhecido como Juruna, ao Estadão.

O manifesto da Fiesp e Febraban, na prática, ainda não teve sua versão final e oficial divulgada até o momento. Após pedido do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, concordou em adiar a publicação do texto, prevista originalmente para amanhã.  

Juruna afirmou que Skaf convidou os sindicatos para participarem do manifesto organizado pelos industriais, mas disse que o convite foi recusado por considerarem que deveria haver críticas diretas ao chefe do Poder Executivo.

O texto feito pelas centrais sindicais afirma que Bolsonaro quer saídas "não constitucionais e golpistas": "Ninguém aguenta mais. Vivemos no limiar de uma grave crise institucional. A aparente inabilidade política instalada no Planalto que acirra a desarmonia entre os poderes da República, esconde um comportamento que visa justificar saídas não constitucionais e golpistas".  

Apoiadores de Bolsonaro organizam atos em várias cidades no feriado do dia 7 de setembro. Entre as pautas das manifestações estão ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Já o documento da Fiesp teve origem e foi inicialmente articulado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Por enquanto, cerca de 200 entidades já teriam assinado o manifesto, como a Associação Brasileira do Agronegócio. O texto também tem o objetivo de demonstrar o incômodo nos setores produtivo e financeiro com a crise institucional fomentada pelo presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o chefe do Poder Executivo não será citado nominalmente.

O documento faz um apelo conjunto ao Executivo, Legislativo e Judiciário, pedindo que “cada um atue com responsabilidade nos limites de sua competência, obedecidos os preceitos estabelecidos na nossa Carta Magna”.

Se por um lado desagradou às centrais sindicais, o texto organizado por Skaf também provocou incômodo dentro do Poder Executivo. Por causa da origem do manifesto ter sido na Febraban, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal comunicaram ao governo que pretendem deixar a entidade.

O presidente tem adotado nas últimas semanas uma postura de enfrentamento às instituições, com críticas ao Poder Judiciário, que ele acredita, sem evidências, conspirar para tirá-lo do governo, e aos governadores, que são quem Bolsonaro culpa pela alta do preço do combustível, ainda que na composição dos tributos também existam impostos federais.

Os signatários do texto da Fiesp que pede harmonia entre os Poderes são associações, empresários, economistas e outros nomes da sociedade civil. Dentre os que assinam estão também a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Entre os empresários que compõem o documento estão nomes recorrentes em manifestos anteriores com críticas contundentes ao governo Bolsonaro e às condutas ou declarações do presidente, como Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Guilherme Leal, da Natura. Embora a Abag também esteja entre as que assinam o texto da Fiesp, o agronegócio está dividido. Parte importante do setor ruralista apoia as manifestações pró-Bolsonaro e contra o STF.

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