Censura não intimidou em 68 e jornal foi apreendido

Censores trabalhavam tanto na redação como na prova de página da oficina gráfica, o que ocorreu até 1975

31 Julho 2009 | 21h05

A decisão de proibir a divulgação dos áudios da Operação Boi Barrica, envolvendo o clã Sarney e o ex-diretor-geral do Senado traz à tona os casos de censura que o Estado sofreu em seu exercício de informar. A mais incisiva ocorreu em 13 de dezembro de 1968, quando a edição do jornal foi apreendida às 3 horas da madrugada, por ordem do general Silvio Correia de Andrade, então delegado regional da Polícia Federal em São Paulo.

 

Veja também:

especial Nas páginas do Estadão, a luta contra a censura

link Justiça censura Estado e proíbe informações sobre Sarney 

 

Naquele dia, do fatídico Ato Institucional nº 5, que institucionalizou a censura no País, a seção de "Notas e Informações" trazia o editorial "Instituições em Frangalhos". O diretor e proprietário do jornal, Júlio de Mesquita Filho, manteve o texto, apesar da pressão do regime que levava veículos à autocensura. Os exemplares foram apreendidos antes mesmo da promulgação do AI-5 sair no Diário Oficial.

 

Mesmo com a repressão, parte dos exemplares chegaram às bancas graças a estratégias da redação. No entanto, em seguida a censura tornou-se ostensiva aos jornais do Grupo Estado. Em dias polêmicos, censores trabalhavam tanto na redação como na prova de página da oficina gráfica, o que ocorreu até o início de janeiro de 1975.

 

As matérias que não passavam pelo crivo do regime eram substituídas por poemas, como "Os Lusíadas", de Luís de Camões, no jornal O Estado de S.Paulo; e receitas de doces bolo no Jornal da Tarde. A estratégia deu visibilidade mundial à publicação, que, em 1974 recebeu o Prêmio Pena de Ouro da Liberdade, conferido pela Federação Internacional de Editores de Jornais.

 

As decisões de censura que remontam ao período ditatorial, porém, têm exemplos recentes. Em junho do ano passado, o Jornal da Tarde foi proibido de publicar uma reportagem sobre supostas irregularidades do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).

 

Nos dias em que a decisão vigorou, o jornal circulou com a inscrição "Sob Censura", até que a decisão foi revertida em virtude de manifestações de entidades que saíram em defesa da liberdade de expressão no Brasil. O processo, considerado "censura prévia", foi extinto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.