''Censura é política e demora fere Estado Democrático''

Entrevista - Rui Tavares Maluf: cientista político; na opinião do analista, manutenção da liminar terá efeito inverso, causando desgaste maior à família Sarney

Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

O cientista político Rui Tavares Maluf vê viés político na liminar que impede o Estado desde 31 de julho de publicar detalhes da Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, envolvendo o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Para o analista, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), a manutenção da liminar terá efeito inverso ao esperado, desgastando a família Sarney e comprometendo a imagem que o parlamentar construiu na redemocratização do País. "Essa delonga se deve a uma questão de natureza política, envolvendo obviamente as figuras do próprio Judiciário", diz Rui Tavares Maluf.

O Estado está sob censura há mais de um mês. Como uma liminar tem vigência tão longa?

A Justiça procura argumentar que existem certas formalidades, mas medidas liminares têm caráter provisório e, por isso, há celeridade no despacho, na decisão. Da mesma maneira que essa decisão nasceu de alguém ligado ao círculo do presidente do Senado, a demora pode estar ligada a uma capacidade de influência que o senador tem para protelar a decisão. Isso atinge diretamente o Estado democrático, é inaceitável. Começa com uma medida aparentemente menos ofensiva, mas pode se generalizar para algo mais definitivo.

Ministros do Supremo, entidades internacionais e nacionais, juristas, analistas e parlamentares repudiaram a sentença do desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Como o sr. avalia essa situação?

Essa delonga se deve a uma questão de natureza política, envolvendo obviamente as figuras do próprio Judiciário. O nascedouro disso é de alta suspeição. Como uma figura dessa, no momento em que recebe pedido como esse, se sente em condições de emitir decisão dessa natureza?

O desembargador tem ligação com a família Sarney, fez carreira no Senado...

Não é só a fotografia que mostra isso, do casamento (da filha de Agaciel Maia, na qual Vieira, Sarney e o ex-diretor aparecem juntos). É todo o relatório mostrado pelo Estado. Na hora que a gente vai da foto para o texto, acabou, não dá, é inaceitável. É uma decisão, no fundo, política. Não digo que é partidária, mas é política, no nascedouro da interpretação.

A Associação Nacional de Jornais informou que há 12 casos de censura judicial desde 2008. O País vive um retrocesso?

Retrocesso haverá se essa decisão que envolve o Estado e outros veículos se mantiver. Se você compara com a Venezuela, o que o presidente Chávez está fazendo, qual é o meio mais eficaz para minar o processo democrático? Atingindo diretamente os meios de comunicação.

Liminar do Tribunal de Justiça do DF em ação movida por Fernando Sarney proíbe o jornal de publicar dados sobre a investigação da PF acerca de negócios do empresário, evitando assim que o ?Estado? divulgue reportagens já apuradas sobre o caso

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