''Censura aos áudios na internet é inócua''

ENTREVISTA - Rosental Calmon Alves, Professor da Universidade de Austin, no Texas

Entrevista com

Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2009 | 00h00

O professor da Universidade de Austin, no Texas, e diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, Rosental Calmon Alves, especialista em liberdade de expressão na América Latina, anotou que a censura ao Estado, em decisão do desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, é o "retrocesso em uma democracia em construção". "Está difícil para as autoridades judiciais brasileiras entenderem, tanto que algumas vezes caíram no ridículo de tentar bloquear o YouTube, o que acaba virando piada", disse. Leia a íntegra da entrevista com Rosental Calmon AlvesComo o sr. vê a decisão?Achei a decisão absurda, inconstitucional. O interesse público deveria estar acima de qualquer outra razão alegada para impedir a publicação das gravações. O que mais lhe impressionou?Além do retrocesso que isso significa, em termos de volta da censura ao Brasil em pleno regime democrático, me impressionou a reação do jornal na internet. Rapidamente investigou quem era o juiz que deu a decisão, mostrou a ligação dele com a família Sarney. Fiquei muito orgulhoso do jornalismo brasileiro e, sobretudo, do Estadão por manter essa tradição de um jornal que resiste à censura. Bloquear a publicação dos áudios no Portal do Estadão foi uma medida ingênua? A internet tem uma arquitetura feita para contornar a censura. A ideia de censurar os áudios no site do Estadão não vai impedir que as pessoas saibam ou recebam os áudios através de outros meios, o que torna inócua a decisão judicial. Isso está sendo difícil para as autoridades judiciais brasileiras entenderem, tanto que algumas vezes caíram no ridículo de tentar bloquear o YouTube, o que acaba virando piada.Qual o significado dessa censura para a democracia no Brasil?Significa um retrocesso dentro do contexto de uma democracia em construção, em que ainda se vive em uma dualidade entre as tradições da política brasileira, em que restrições como essa eram possíveis, e a época atual, quando isso não deveria ser cabível. A Justiça brasileira tem uma chance importante de corrigir isso a partir do recurso que o Estadão vai apresentar, voltar a nos colocar nos trilhos da consolidação da nossa democracia e não permitir retrocessos.

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