Nilson Bastian|Reuters
Nilson Bastian|Reuters

Cenas de uma batalha

Plenário da Câmara se transforma em trincheira com uso das mais diversas artilharias por adversários na votação do impeachment

Luiz Maklouf Carvalho, enviado especial, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2016 | 07h39

BRASÍLIA - “Serviço de inteligência - 369 a favor.” Essa inusitada previsão de resultado da votação de pedido de impeachment circulou por todo o sábado, no plenário da Câmara, em uma cartolina exibida pelo deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR). Tinha outros números, escritos a mão, como “Estadão 346” ou “Vem Pra Rua 352”, mas era o da “inteligência” que Hauly gostava de ressaltar. “Não sou de dentro, mas tenho ligações”, explicou, conspirativo, ao deputado Arnaldo Jordy, do PPS do Pará, e seguiu com a exibição.

No começo da tarde do sábado, Jordy, a favor do impeachment, tinha a própria previsão: 344 a favor, 157 contra, com ainda 12 indecisos. “O PT tem dez dirigentes presos”, comentou, à guisa de explicação. “Não que eu me iluda com essa turma do PMDB”, esclareceu, como um renitente adversário do senador paraense Jader Barbalho (PMDB-PA), a quem nem sequer cumprimenta (e vice-versa). Jader é contra o impeachment. Conseguiu pelo menos três votos peemedebistas: o de sua atual mulher, deputada Simone Morgado (PMDB-PA), o da ex, deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA), e o do parlamentar Beto Salame (PP-PA). Jordy entrou para a política na militância estudantil contra a ditadura. Lá se vão 30 anos de mandatos ininterruptos - quatro de vereador, dois de deputado estadual e este segundo de deputado federal. 

Na tribuna à esquerda, vista do plenário, peroravam os deputados contra o impeachment. O da vez, o ex-petista, agora na Rede, Alessandro Molon (RJ) consegue o feito raro de chamar a atenção de uma parte dos presentes. “O Cunha é réu no STF”, discursou, bom orador que é. “Uns 90 conseguem ser ouvidos, pela oratória e pelo conteúdo”, disse Jordy, que é um dos 90. A Rede, de Molon, tem quatro deputados. Que conseguiram se dividir na metade, prós e contra (alô candidata Marina Silva).

Adiposidade. O barrigão de Moroni Torgan (DEM-CE) se aproxima. “Se a Dilma ganhar, será um desastre total, se o Temer ganhar, tem pelo menos uma chance de conseguir uma união”, diz, olhando o passar de uma bandeira do Brasil. É seu colega Caio Nárcio (PSDB-MG), como se pode vislumbrar no pouco que o patriótico lábaro permite ver. No placar de Torgan, no sábado à tarde, os a favor, como ele, seriam entre 355 e 367.

Outro barrigão, maior, refestela-se, visivelmente cansado, em sua cadeira confortável: o veteraníssimo Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), pró-impedimento da presidente Dilma. Está contando com 355 votos, “dentro da margem de erro”, mas adenda, é contra o bolão que alguns colegas estão assinando. “É muito sério para brincar”, diz. Um de seus motivos está “nas mentiras da campanha de 2014”. 

Deus tá vendo. Subiu na tribuna, na mesma tarde, o deputado Cabo Daciolo, do PT do B do Rio de Janeiro, contra o impeachment. “Dentro do Congresso Nacional existem quadrilhas”, esbravejou, mais de uma vez, para o mais completo desprezo dos em torno de 150 genericamente quadrilheiros ali presentes. “Ele falar ou não falar é a mesma coisa”, explicou Faria de Sá. Daciolo encerrou com a primeira parte do Pai Nosso e com um aviso: “Deus está no controle”. 

Depois dele subiu o também barrigudo e histriônico Sílvio Costa, do PT do B de Pernambuco. Costa não tem nada a ver com o outro PT - talvez a gravata vermelha. Mas, por uma dessas idiossincrasias da história, um sinal dos tempos, tornou-se um dos principais defensores do governo e da presidente Dilma Rousseff. Foram 50 minutos a deitar falação. Costa é dos que acham ter o dom da oratória. Começou dizendo isso, aliás: a mulher, Cíntia, pediu-lhe que levasse o discurso escrito - é por isso que se diz que elas sabem das coisas -, mas desdenhou, olimpicamente. Seu neto, Sílvio, de 5 anos, também foi citado. Costa chamou Eduardo Cunha de “ladrão” e disse que tinha “nojo” do vice-presidente Michel Temer. “Chegamos até a tomar vinho, mas estou com nojo dele, que há dois anos vem conspirando contra a presidente Dilma”, afirmou. No meio da cantilena, alguém gritou que já estava “na hora do recreio”. Mas ele seguiu: “O jogo de vocês é não deixar o Eduardo Cunha ir pra cadeia porque a dele vai ser a maior delação premiada e vai sobrar pra todo mundo”. Os pró-impeachment o apuparam, de leve.

O advogado Rubens Pereira, do PC do B do Maranhão, é um varapau de 1m88. Tem 32 anos, foi deputado estadual duas vezes e está estreando na Câmara Federal. É contra “essa denúncia” de impeachment. Pode ser a favor de outras, que possam vir. “Em 92, o impeachment do Collor uniu o Brasil”, disse. “E agora, seja qual for o resultado, o Brasil estará dividido, num clima de ódio e de intolerância”. Pereira estimava um placar favorável ao governo, com 185 manifestações contrárias, suficientes para barrar o pedido.

Testosterona. À medida que a tarde avança, o movimento cresce. Há mais bandeiras encapando deputados - como a de Minas e a do Pará. Um dos paraenses, Wladimir Costa (SD), pró-impeachment, cometeu, na madrugada da sexta, um discurso cheio de carimbó. Ao descer da tribuna, apresentou-se com desconcertante sinceridade: “Sou o maior fodedor do Pará”.

Chapa quente. A maratona de discursos entrou pela madrugada do domingo, com uns cem deputados presentes e acesos. À 1 hora falava Vitor Valim, do PMDB cearense, na tribuna dos pró-impeachment. O petista Sibá Machado passou a prestar atenção quando seu nome foi citado. Valim o chamou de “safado” e de “bandido”. Machado reagiu, ameaçando “dar um pau” quando o colega descesse ao plenário. Foi o bafafá da madrugada, um querendo acertar o outro, mas a turma do deixa-disso conteve os ânimos. 

Entre eles, o deputado Zé Geraldo, do PT do Pará, que disparou para o centro da contenda quando viu que podia sair faísca. Geraldo é capixaba, de Colatina. Mudou-se para Altamira, com a família, atrás do sonho da Transamazônica, nos anos 70. De agricultor virou sindicalista, depois petista e, em 94, deputado estadual. Destacou-se, na Câmara, entre os deputados mais dispostos a não aceitar provocação. “Às vezes, a gente vai pra cima, mas sempre com o pé no chão”, disse, na alta madrugada, pouco antes de subir na tribuna para defender o governo. Sua previsão, àquela hora tardia, era otimista: “Eles vão perder”.

 

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