CENÁRIO: Renan cobra fatura do impeachment e arrasta Planalto para crise

Presidente do Senado consegue mostrar ao Congresso que tradicional modelo de troca de apoios do presidencialismo de coalizão pode ganhar um novo componente nesses tempos: a pressão por ações que inibam a Lava Jato

Caio Junqueira, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 05h00

Alvo de pelo menos 11 investigações no STF, a maior parte delas decorrentes da Lava Jato, Renan Calheiros tenta, nos menos de 100 dias na presidência do Congresso que lhe restam, liderar um movimento contra métodos da operação no momento em que ela se volta para o Senado. 

Em uma frente, articula a aprovação do projeto que estabelece uma lei de abuso de autoridade que na prática inibe muitas das práticas com que a Lava Jato avança nas investigações. O Senado, porém, tem precificado a provável repercussão negativa da aprovação e não lhe dá garantias de aprovação. Em outra frente, recorre ao Executivo, de onde opera toda a cúpula do seu partido, o PMDB, um dos alvos da Lava Jato. 

Na prática, Renan cobra a fatura pelo seu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff, tendo em mãos o poder de pautar no Senado até o fim do ano a principal proposta legislativa do governo de 2016, a PEC do Teto. Acaba, contudo, por arrastar o presidente Michel Temer para uma crise entre poderes que não interessa ao Planalto neste momento. 

Desde sexta-feira, 21, Renan esteve com o presidente da República por pelo menos três vezes. Uma no domingo, véspera dos mais duros ataques que fez à operação policial ocorrida no Senado na sexta-feira. Outra anteontem, logo após a polêmica fala em que classificou de “juizeco” o juiz que autorizou a ação. E na terça-feira, 25, depois de a presidente do STF, Cármen Lúcia, rebatê-lo e defender o Judiciário. Em todas as suas falas, o alvo preferencial de Renan foi o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a quem a PF é subordinada. Criticou-o sem que Temer ou seu entorno em nenhum momento se manifestassem.

Ao trazer Temer para a crise, Renan conseguiu mostrar ao Congresso que, se a crise econômica congela a distribuição de emendas parlamentares e diminui o potencial político dos cargos de primeiro e segundo escalões, o tradicional modelo de troca de apoios do presidencialismo de coalizão pode ganhar um novo componente nesses tempos: a pressão por ações que inibam a Lava Jato.

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