BASTIDORES: O PSDB e a máxima do 'cada dia com sua agonia'

Apesar de o discurso oficial no ninho tucano ser 'tudo em nome das reformas', um dos motivos do apoio tucano foi a promessa de que o PMDB não terá candidato às eleições presidenciais do ano que vem

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2017 | 21h57

BRASÍLIA - A decisão do PSDB de continuar apoiando o governo do presidente Michel Temer foi tomada após muitas negociações que envolveram até mesmo as eleições de 2018 e a "salvação" do senador afastado Aécio Neves (MG). A portas fechadas, o próprio Temer assegurou que o PMDB não terá candidato à sucessão presidencial, em 2018, e ofereceu  como “dote” aos aliados o tempo de TV do partido na propaganda eleitoral gratuita.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital paulista, João Doria - hoje os dois mais fortes nomes do PSDB para a disputa ao Palácio do Planalto -, apressaram-se em defender a sustentação a Temer. O discurso oficial é o de que os movimentos do PSDB foram tomados em nome das reformas da Previdência e da lei trabalhista, para não deixar a economia degringolar.

Nos bastidores, porém, a avaliação da ala pró-Temer no PSDB é a de que manter o presidente “fraco” e “sangrando” pode ser conveniente para os tucanos. O diagnóstico colide com o apresentado pelos chamados “cabeças pretas” - grupo mais jovem do partido -, para quem permanecer ao lado de Temer levará ao “abraço de afogados” nas eleições.

Ao saber que o racha no PSDB se mantinha mesmo após o julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que absolveu a chapa Dilma-Temer e o livrou da deposição, o presidente fez várias articulações no fim de semana, pedindo apoio e tempo para mostrar que o governo tem tudo para se reerguer e aprovar as reformas. Nessa tarefa, contou com a ajuda do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, que no domingo -- véspera da reunião do PSDB - chegou ao Palácio do Jaburu por volta de meio dia e só saiu de lá às 20 horas.

O aceno para a “salvação” de Aécio no Conselho de Ética do Senado - presidido pelo PMDB - também entrou nas negociações. O PSOL e a Rede pediram a cassação do mandato do senador, que comandava o PSDB, logo após as delações da JBS.

Em sua ofensiva para segurar os tucanos, Temer contou, ainda, com o aval do  ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que dias atrás havia irritado o Palácio do Planalto, ao chamar novamente o governo de “pinguela” - e com o empenho dos ministros de Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, e da Secretaria de Governo, Antônio Imbassahy.

A preocupação do Planalto era a de que a saída do PSDB “contaminasse” outros partidos da base aliada, provocando um “efeito dominó” de desembarque, o que agravaria ainda mais a crise política. Aloysio chegou a evocar até mesmo o clássico do escritor francês Gustave Flaubert para defender a lealdade de seu partido a Temer. “O PSDB não é Madame Bovary”, disse ele, há onze dias, numa referência à personagem do século 19 que traiu um marido insosso e, acossada por dívidas, teve um fim trágico. “Foi uma frase com muita cultura e graça”, elogiou Moreira Franco.

Na prática, o casamento de sobrevivência do PSDB com o PMDB continua, mas não se sabe por quanto tempo nem muito menos se irá até 2018. Em Brasília, nunca se viveu tanto a máxima “cada dia com sua agonia”.

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