TASSO MARCELO/AE
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Cenário: PCdoB revive processo que levou ao fim do antigo PCB

Institucionalização do partido, com a pressão pela conquistas de mandatos e posições no governo, levou ao abandono paulatino do marxismo-leninismo e à perda de lideranças

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h10

Quando Luiz Carlos Prestes voltou do exílio em 1979 o Partido Comunista Brasileiro (PCB) vivia um processo de lutas internas que culminou com o anúncio da divergência entre Prestes, seu líder histórico, e a maioria do Comitê Central, que permaneceu ao lado de Giocondo Dias. O desembarque do Cavaleiro da Esperança expôs a crise que pode ser lida como o início do processo que, anos mais tarde, levaria ao abandono da foice e do martelo e da própria sigla.

Trata-se do afastamento paulatino da concepção leninista de partido em troca de sua institucionalização, com a crescente importância da conquista de mandatos parlamentares e gabinetes nos governos. As tarefas e os desafios da legalização da legenda exacerbavam contradições com uma vida e com hábitos crescidos na clandestinidade.

A lei eleitoral impediu, por exemplo, ao privilegiar o voto no partido em vez do candidato, a reeleição, em 1986, do deputado federal Alberto Goldman. Muitos eleitores preencheram a cédula com seu nome e também com a sigla de seu antigo partido, o MDB, que abrigara os comunistas do PCB e do PCdoB até a legalização das agremiações.

Derrotado, Goldman deixou o PCB e voltou ao MDB para ser secretário do governador de São Paulo, Orestes Quércia. Foi seguido por outras lideranças, que escolheram legendas mais viáveis eleitoralmente. Quem assistiu a esse processo foi o hoje presidente do novo PCB, Edmílson Costa, legenda reconstruída pelo grupo minoritário que não aceitou a transformação do partido em PPS (hoje Cidadania), em 1992.

Para ele, a institucionalização levou ao abandono do marxismo-leninismo e de seu símbolos. “Nosso partido é hoje um partido de militantes”, diz Costa, que pode se tornar o líder da última agremiação no País a trazer o comunismo no nome.

É que o processo que levou o antigo PCB ao atual ao Cidadania demorou, mas chegou ao PCdoB. Primeiro veio a perda de seu líder histórico, João Amazonas. Depois, o partido apostou suas fichas na conquista de postos no Parlamento e cargos nos governos.

Assiste agora ao abandono de lideranças. Primeiro foi Aldo Rebelo. Agora, Flávio Dino. Outros virão. Há um clima de velório na agremiação. “Quem ainda fala em socialismo no partido é a velha militância, como o Renato Rabelo”, diz Costa. O impacto do processo de institucionalização distanciou a legenda do velho objetivo estratégico dos comunistas: o socialismo. Aos poucos, os gabinetes passam a ter mais importância do que os sindicatos e movimentos populares, A revolução cedeu espaço à reforma, e a foice e o martelo, aos papéis e canetas.

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