Miguel Schincariol / AFP
Miguel Schincariol / AFP

Cena de abertura

Estão sem projeto de candidato os 40% do eleitorado que, no momento, são apenas voyeurs

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 03h00

Luiz Inácio Lula da Silva inicia a campanha municipal imediatamente. Quase queimou a largada ao repetir, à saída da cadeia, estilo, conteúdo e tom que há muito cansaram o eleitorado. Deverá seguir mais planejado e arejado para ser ouvido. Reativo, a princípio, retomará uma espécie de estado normal recreativo. Nada de liderar a oposição, juntar a esquerda, reunir partidos. 

Elegeu Jair Bolsonaro como adversário e sua contundência, como era de se esperar, fortaleceu o presidente. Os tropeços iniciais não impedem que a retomada seja uma dramática campanha de restauração política do PT. 

Lula é um ambíguo de palanque que fala aos convertidos. Assim prosseguirá, deixando aos demais margem para outras interpretações. 

No discurso da rentrée, por exemplo, lembrou à militância que é preciso respeitar Jair Bolsonaro porque, afinal, foi eleito pela maioria do povo. Permitiu a conclusão dos seus ouvintes de que vai forçar o rompimento de sua inelegibilidade e, depois, vitoriosa uma anticandidatura, exigir o fato consumado. Tudo é possível, mas seu exército de hoje não sustenta tal devaneio. É com discurso que Lula sempre trabalhou e vai trabalhar no futuro. 

Pela campanha municipal tentará reunir e consolidar os 30% de votos que o PT manteve nos últimos 20 anos em qualquer eleição. Pretende eleger centenas de prefeitos que lhe servirão de base na campanha presidencial e em outros projetos a definir. Lula quer ver o PT disputando com chances em todas as capitais, nas grandes cidades do interior e em todos os Estados. A campanha será um manifesto do começo ao fim. 

Sem dúvida, Lula entra em campanha mais forte, mas não porque tenha perspectiva de poder real a curto prazo, ele não foi inocentado, apenas libertado. Foram seus adversários que se enfraqueceram. Principalmente o juiz que o condenou e o condutor da operação que apurou os crimes de que é acusado. 

Jair Bolsonaro apresenta-se a esta cena inaugural da disputa já tendo adversário da sua faixa de frequência e com um governo inexistente na política. No momento, até sem partido e uma labuta rotinizada por conflitos artificialmente construídos. Ao designar Lula seu adversário, também permite sua recriação. Um alimenta-se do outro. Se conseguir a recuperação da economia terá projeto para qualquer campanha. Não importa que haja pouco mérito seu nos resultados, estes uma contribuição decisiva do poder Legislativo. O governo é sua autoria. E a tarefa do presidente Bolsonaro será também consolidar os 30% do seu eleitorado, vulnerável ao desencanto de muitos que o seguiram por razões de conjuntura. 

Estão sem projeto de candidato os 40% do eleitorado que, no momento, são apenas voyeurs nesta arena política. Muito pouco já está em progresso para 2022 e a novidade é que todos fogem do apadrinhamento de Bolsonaro ou do PT. De biografia precoce, mas se colocando em evidência, estão os governadores Ibaneis Rocha (DF) e Wilson Witzel (RJ). Ciro Gomes nunca deixou de estar na roda e, desta vez, já completamente afastado da aliança com o PT. O ministro Sérgio Moro, embora tímido, está bem colocado e o governador de São Paulo, João Doria, prepara-se para saltar mais uma vez de galho. A candidatura melhor assessorada e em processo avançado de estruturação, do apresentador Luciano Huck, praticamente é uma realidade.  

Nenhum deles, porém, apresentou ainda projeto para arrebatar o eleitorado. 

É um risco contar com o imponderável para salvar a pátria, mas um nome novo pode realmente surgir, de repente. Necessário se faz, no entanto, ajudar o acaso: estimular, estudar como se criam alternativas e como se transformam possibilidades em candidatos. Os partidos já estão entrando atrasados nessa cena de abertura. 

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