Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Celso Russomanno coloca ONG para atender eleitorado em São Paulo

Candidato do PRB à Prefeitura distribui cartões e oferece atendimento pessoal a quem solicita

Ricardo Chapola,

08 de setembro de 2012 | 21h57

SÃO PAULO - Líder nas pesquisas de intenção de voto, o candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, oferece durante atividades de rua de sua campanha a prestação gratuita de serviços aos eleitores por meio do Instituto de Defesa do Consumidor (Inadec), entidade privada fundada por ele e pelo irmão, Mozart Russomanno, em 1995. O Inadec ganhou um valor estratégico na campanha de Russomanno, que durante as caminhadas se compromete em solucionar as demandas apresentadas pelos eleitores.

Numa espécie de panfletagem paralela à dos santinhos convencionais, o candidato e assessores distribuem cartões do instituto, anotam dados e contatos das pessoas e mobilizam a estrutura da ONG para o atendimento dos pedidos. Após ser consultado sobre a prática pelo Estado, o Ministério Público Eleitoral abriu na segunda-feira passada um procedimento para investigar se Russomanno pratica irregularidade ao utilizar o Inadec na campanha eleitoral. O promotor eleitoral Roberto Senise afirmou que vai apurar se a prática configura compra de votos.

Entre agosto e o início deste mês, o Estado entrevistou cinco pessoas que pediram ajuda ao candidato do PRB durante atividades da campanha e que foram direcionadas ao instituto.

A pesquisadora Suzy Ramos dos Reis, de 40 anos, alegou que não conseguia marcar uma consulta para a filha na rede municipal de saúde. A menina de quatro anos tem um problema congênito nos pés. De passagem pelo Brás no dia 24 de agosto, Suzy resolveu solicitar o auxílio do candidato do PRB, que fazia uma caminhada no bairro, localizado no centro da capital. "Ele pediu que eu ligasse para o Inadec. Liguei e me prometeram arrumar uma consulta médica", contou a pesquisadora.

Segundo Suzy, a ONG conseguiu agendar uma consulta para sua filha com um médico conhecido da equipe de Russomanno numa unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) da Prefeitura, na Lapa, na zona oeste. A consulta, conforme a pesquisadora, está marcada para a próxima terça-feira. "Achei legal a atenção que eles deram. Acredito naquilo que eu vejo. Eles tentam colocar o sistema para funcionar - que deveria funcionar sem essa pressão", comentou.

A reportagem não conseguiu confirmar a informação com a unidade de saúde.

O Estado ouviu relatos de outros casos de eleitores que apresentaram suas reclamações e foram encaminhados pelo próprio Russomanno ao Inadec. Todos contaram que os pedidos foram acolhidos pela entidade e estão em vias de resolução.

Ao encontrar Russomanno durante uma caminhada do candidato pela Vila Mariana, no último dia 3, o técnico em enfermagem José Carlos Rodrigues, de 50 anos, reclamou que foi lesado em R$ 500 por uma empresa de financiamento de veículos, que não prestou o serviço contratado. "Me pediram para ir lá levar os documentos. Eles (funcionários do Inadec) se comprometeram a me ajudar, vão ver o que podem fazer", disse Rodrigues.

No dia seguinte, no Mercado Municipal do Ipiranga, a dona de casa Solange Alves, de anos 52 anos, reclamou com o candidato do entulho acumulado ao longo de dois anos em frente à sua casa, no mesmo bairro. Solange foi orientada a procurar a Prefeitura e, se não fosse atendida, a retornar para que os advogados assumissem a causa.

"A advogada foi muito atenciosa. Ela está cobrindo tudo, com um trabalho sensacional", disse José Henrique Teixeira Alves, marido da dona de casa, que foi ao Inadec no lugar da mulher. "Vamos votar nele de coração e vamos indicar outras pessoas para votar. Nos trataram muito bem."

Outros eleitores procurados pelo Estado se negaram a fornecer informações, alegando que atendiam ao pedido de uma das advogadas da equipe da ONG.

Para o especialista em direito eleitoral, o advogado Gustavo Severo, "a filantropia no período eleitoral sempre deve ser analisada com cautela pela Justiça Eleitoral". "Sem dúvida alguma ele está tendo benefício eleitoral com isso. É preciso saber se é lícito ou ilícito."

Recursos próprios. A reportagem também visitou as instalações do Inadec no dia 31 de agosto. Localizado numa casa alugada na zona sul da capital, a ONG possui uma estrutura pequena: conta com três advogados, uma faxineira e uma recepcionista. Russomanno faz questão de enfatizar que paga do próprio bolso todas as despesas - entre salários e contas de água e luz.

No local, a única referência explícita à eleição eram os carros parados na frente do prédio, com adesivos do candidato do PRB. No site do Inadec, contudo, há um link que leva o internauta à página oficial da campanha de Russomanno. Desde a fundação da ONG, de acordo com o candidato, 350 mil pessoas já foram atendidas pelo Inadec.

Outro lado. O candidato e também presidente do Inadec, Celso Russomanno, não quis se pronunciar sobre o que chamou de "supostas denúncias, ou denúncias infundadas". Ele tem evitado responder a acusações sobre as quais é questionado. Nessas ocasiões, o ex-deputado alega que está sendo alvo de casos requentados, muitas vezes já prescritos, segundo ele.

Russomanno também aproveita para enaltecer sua conduta política. Depois que deixou o cargo deputado federal, ele diz ter devolvido R$ 726 mil de verba de gabinete aos cofres públicos. Vangloria-se também pelo fato de sustentar com o próprio salário o seu instituto. "Disso ninguém lembra", desabafa.

Logo depois da visita que o Estado fez ao Inadec, Russomanno entrou em contato com a reportagem: "Banco com meu dinheiro todos os gastos do instituto, pago funcionários, as contas da casa, todas as despesas e não é barato, mas vale a pena. Fico muito feliz que o Estado tenha vindo conhecer nosso trabalho. É uma estrutura pequena, mas fazemos o melhor que podemos", afirmou. / COLABOROU DÉBORA ÁLVARES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.