Celso Furtado responsabiliza Jango e Lacerda pelo golpe militar

O Nordeste foi a região brasileira mais sacrificada pelo movimento militar de 1964, muito mais do que outras regiões do sul do País. Isso porque era no Nordeste que havia um movimento social em andamento e que apontava para uma outra direção. Essa é a opinião do economista Celso Furtado que trabalhou muito próximo, como ministro e superintendente da Sudene, dos três presidentes que antecederam a chegada dos militares ao poder: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. O economista Celso Furtado acabou sendo um dos numerosos políticos e técnicos brasileiros que tiveram seus direitos políticos suspensos por 10 anos pelos militares. Foi obrigado a partir para o exílio no Chile, Estados Unidos e França, onde lecionou durante 20 anos, na Sorbonne, em Paris.Furtado só voltou à política após a abertura, tendo sido embaixador do Brasil junto a Comunidade Européia e , posteriormente, ministro da Cultura do governo de José Sarney. Hoje, analisando a situação criada em 1964 e com um recuo de quatro décadas, ele está convencido de que a morte do presidente dos Estados Unidos John Fitzgerald Kennedy, assassinado no dia 22 de novembro de 1963, talvez tenha precipitado a mudança da posição norte americana em relação ao governo brasileiro, passando de um apoio claro através da Aliança para o Progresso para uma cooperação com o golpe militar. Ele lembra que recebeu no Nordeste o irmão e enviado do presidente, Edward Kennedy, e que o próprio presidente John Kennedy o recebeu, em Washington, muito interessado no que se fazia pelo desenvolvimento da região. Furtado acredita também que "as forças armadas foram enganadas ", pressionadas pelos usineiros do Nordeste e por interesses econômicos do sul, mas atiçados pelo então governador do Rio, Carlos Lacerda.Furtado faz revelações importantes. Uma vez, ele advertiu João Goulart de que deveria se preparar para a hipótese de Carlos Lacerda sucedê-lo na Presidência, tendo se surpreendido com a resposta do ex-presidente: "Isso nunca. Esse homem foi o assassino do doutor Getúlio". Apesar disso, Celso Furtado descreve Jango como um homem sempre disposto a acomodação (menos com Lacerda), enquanto o antigo governador carioca é definido como um "guerreiro nato",que somente se agigantava brigando. Hoje, 40 anos depois, sua impressão é que a responsabilidade pelo golpe militar pode ser atribuída tanto a Jango quanto a Lacerda.Estado - Que balanço o senhor faz do regime militar que se instalou a partir de 1964? Qual foi a sua grande motivação?Celso Furtado - O balanço pode ser resumido de forma simples, o de um fracasso. A justificativa dos militares era apenas aumentar o poder do Estado que estava desorganizado e sem comando. Quanto a motivação, depende da região do País. Tenho a impressão que o Nordeste, onde me encontrava na época, foi a região mais prejudicada pelo golpe. O Nordeste foi surpreendido com uma política em andamento, um movimento social, através das Ligas Camponesas, da Sudene, e da própria Igreja Católica que apontavam para uma outra direção. Tudo isso foi destruído.Estado - Como explica o fato de Edward Kennedy, irmão do presidente norte americano John F. Kennedy, ter visitado o Nordeste , manifestando simpatia pelos movimentos sociais, e os EUA terem apoiado o golpe militar pouco tempo depois ?Furtado - Edward Kennedy esteve comigo no Nordeste e havia apoio da Aliança para o Progresso. Mas havia também uma divisão no governo dos Estados Unidos que ficou ainda mais caracterizada após a morte do presidente John Kennedy. No interior do governo dos Estados Unidos havia um movimento de apoio às forças progressistas do Nordeste. Como funcionário do governo brasileiro cheguei a ser recebido pelo presidente Kennedy em Washington. Isso revela o grau de interesse pelo trabalho que se estava fazendo na área da Sudene. Por isso recebi com surpresa quando eles mudaram de direção.Estado - O que teria levado o governo dos Estados Unidos a mudar de posição?Furtado - Com a morte do presidente Kennedy houve uma mudança qualitativa. O sucessor de Kennedy, o presidente Lyndon Johnsson , representou uma mudança profunda. Basta ver a escalada no Vietnã que foi feita durante sua gestão. Uma mudança substantiva. No Brasil, os aliados de Kennedy éramos nós. Havia um outro lado bem mais próximo de Carlos Lacerda.Estado - Com Kennedy haveria o golpe militar?Furtado - É muito provável que houvesse uma resistência ao golpe. O governo norte americano também tem suas falhas e suas bruscas mudanças de direção. Muitas vezes fico pensando se os norte americanos estão realmente preparados para responder a essa imensa responsabilidade que é o exercício dessa liderança mundial. Tenho minhas dúvidas... Estado - O senhor conviveu com os três presidentes que antecederam os militares: JK, Jânio e Jango. A seu ver, o golpe era inevitável? . Dava para sentir que nada poderia impedir o movimento militar?Furtado - Não é fácil responder a essa pergunta. Havia sintomas de que algo anormal estava ocorrendo. Forças muito importantes estavam se mobilizando. Sempre houve no Brasil uma tradição de resistência a golpes.Estado - O presidente João Goulart chegou a perceber o golpe que se preparava? Ele mesmo não preparou um contra golpe ou apostava na sua sucessão de forma democrática, mesmo tendo Carlos Lacerda como um dos candidatos?Furtado - Sempre disse as coisas diretamente ao presidente João Goulart. Me recordo que no momento mais crucial disse a ele: " É preciso que o senhor aceite a hipótese de que Carlos Lacerda venha a ser o seu sucessor". Sua reação foi imediata; " Esse nunca. Esse homem foi o assassino do doutor Getúlio". Jango sempre foi um presidente favorável à acomodação, mas nesse caso sua resposta foi sem hesitação. De um lado ele afirmava que não passaria o poder ao assassino do presidente Getúlio Vargas, mas também não tinha força suficiente para impedir uma eventual posse do Lacerda, caso ele fosse eleito. Houve também uma tentativa de Jango aumentar seus poderes, através do projeto de estado de sítio que acabou fracassando. Esse projeto deu a impressão que ele pretendeu dar um passo à frente, poucos meses antes de os militares terem tomado o poder.Estado - Para onde ia o Brasil se o golpe militar não tivesse ocorrido ?Furtado - Quando ocorreu o golpe não se pode dizer que o Brasil estava bem. O País já enfrentava fortes dificuldades no exterior e encontrava-se em declínio no plano interno. Tratava-se de sustentar a economia que poderia entrar em colapso. O governo não tinha força para adotar medidas sérias. Acho que naquele momento a moratória era indispensável, uma moratória negociada com os credores. Nessa ocasião o problema dependia tanto ou mais do Lacerda do que do próprio Jango. Sua posição era radical e tudo que cheirava Jango ele era contra. Mesmo comigo ele sempre esteve em conflito em razão da minha proximidade como ministro do presidente.Estado - A quem o senhor credita a responsabilidade pelo golpe militar?Furtado - Tenho a impressão que a responsabilidade do golpe cabe tanto ao Jango quanto ao Lacerda. A minha impressão é que o problema da sucessão do Jango seria muito difícil e complicado, no caso de vitória do Lacerda. João Goulart teria que enfrentar um guerreiro nato que só crescia e se agigantava brigando. No Brasil, os militares acreditaram no espantalho e acabaram sendo enganados, como também foram enganados os que acreditaram que os militares só permaneceriam dois anos no poder, antes de devolvê-lo aos civis. Esse foi o caso do grupo mineiro, do Magalhães Pinto e outros, todos a espera da tradicional acomodação que acabou não acontecendo.Estado - Quais foram as conseqüências da tomada do poder pelos militares em 1964?Furtado - No Nordeste as consequências foram mais graves, pois a repressão exercida acabou com todo movimento social existente, as Ligas Camponesas e a Igreja Católica. A região do País que havia acumulado maior atraso social era o Nordeste. O atraso aumentou ainda mais com a mudança . O movimento de 1964 passou despercebido em várias partes do País. Foi um golpe a mais, mesmo em São Paulo. Houve atendimento de certos interesses econômicos e a região se acomodou. Exceção do Rio de Janeiro, onde a tensão foi maior em razão da presença de Lacerda que constituia um desafio e no Rio Grande do Sul. Hoje, 40 anos depois, acho que o Exército, as forças armadas, foram enganadas. No Recife, quando estive com os militares cheguei a perguntar ao general comandante do IV Exército, Justino Alves, o que eles estavam pretendendo e a resposta foi simples: " Queremos colocar o Arraes para fora" . O general chegou a prometer que se o Arraes se acomodasse não seria perseguido. Não foi bem o que vimos e o Arraes , entre os governadores punidos, foi o mais sacrificado e isso em função das pressões exercidas pelos usineiros.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.