Wilton Junior/AE
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Celso Amorim defende frente ampla 'um pouco à direita' contra Bolsonaro

Para ex-ministro das Relações Exteriores estratégia é uma forma de sobrevivência dos partidos de esquerda no Brasil

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2018 | 16h41

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim defendeu, durante conferência internacional da Fundação Perseu Abramo nesta segunda-feira, 10, a formação de uma frente ampla "deslocada um pouco para a direita" para fazer oposição ao presidente eleito, Jair Bolsonaro, como forma de sobrevivência dos partidos de esquerda no Brasil.

"No momento, o País exige uma frente ampla democrática em que a linha divisória vai ter que se deslocar um pouco para a direita porque, se não, nós não sobreviveremos", disse o ex-chanceler ao lado de representantes de partidos de esquerda de Espanha, Portugal e Uruguai, em São Paulo.

Na opinião de Celso Amorim, faltou ao PT entender o que ele chamou de fenômeno que elegeu Jair Bolsonaro como presidente do País e aliados nos governos estaduais e no Congresso. Para o ex-chanceler, o exemplo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o apoio de setores econômicos e de líderes religiosos permitiu a eleição do candidato do PSL na disputa com um discurso não racional e um apelo à "autoridade". "Não é para fazer o mesmo, mas temos que entender isso."

Ele lembrou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso e condenado na Lava Jato, era o favorito para vencer as eleições conforme pesquisas feitas antes de sua candidatura ter sido barrada pela Justiça Eleitoral e que os votos de Lula em periferias e cidades fora do Nordeste foram para Bolsonaro. "O candidato da extrema direita foi capaz de captar algum elemento de comunicação popular que nós temos que estudar e entender, não adianta só negar. Claro que é horrível, mas aconteceu, é real."

Amorim chegou a ser cotado como candidato ao governo do Rio pelo PT. "Ainda bem que não fui. Perderia de maneira humilhante porque o candidato que ganhou a eleição no Rio Wilson Witzel 15 dias antes da eleição eu, que fui pré-candidato, nunca tinha ouvido falar o nome dele", declarou.

Discurso. Além de entender o contexto de comunicação que elegeu Bolsonaro, o ex-ministro disse que o discurso do PT precisaria ter sido diferente. "Não exploramos suficientemente um discurso daqui ou daquilo, está certo, isso é verdade. Eu acredito que tinha que ser discutido mais emprego, o que interessa às pessoas, mas não teria sido suficiente", comentou.

Celso Amorim fez um apelo para que os partidos de esquerda entendam primeiro os motivos que levaram à eleição de Bolsonaro para, a partir daí, oferecer "respostas democráticas e progressistas". "Vontade não é suficiente, é importante, mas temos que entender o que está acontecendo", insistiu. 

MST. Ao comentar a morte de dois militantes do Movimento dos Sem Terra (MST) na Paraíba, Amorim afirmou que o episódio é um prenúncio do que pode ocorrer no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro, o qual ele classificou como de extrema direita.

Na noite de sábado, dois integrantes do movimento foram mortos a tiros no interior de um acampamento, no município de Alhambra, a 45 quilômetros de João Pessoa, capital da Paraíba. "É um prenúncio terrível do que pode vir a ocorrer com um governo de extrema direita no Brasil. Essas coisas já ocorriam mesmo em outras situações, mas poderão ocorrer de maneira muito mais grave, mais ampla, se elas ficarem impunes", disse Amorim.

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