Wilton Junior/AE
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Celso Amorim compara troca de favores entre Planalto e Congresso a 'sexo explícito'

Em entrevista à BBC, ex-ministro de Lula e Dilma afirma que 'nunca viu coisa tão escancarada'

O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2017 | 11h27

Ex-ministro das Relações Exteriores, do governo Luiz Inácio Lula da Silva, e da Defesa, do governo Dilma Rousseff, Celso Amorim criticou o "troca-troca" de favores entre o Planalto e o Congresso, às vésperas da votação da denúncia contra o presidente Michel Temer. Em entrevista à BBC Brasil, divulgada nesta sexta-feira, 28, Amorim disse que "nunca viu uma coisa tão escancarada" e que isso "é quase sexo explícito".

"Não estou falando de negociar politicamente. Isso é normal. Em qualquer país do mundo, você faz concessões para fazer uma coalizão. Não é isso. O problema é você ter que negociar favores, verba. Como você está vendo agora. Nunca vi uma coisa assim tão escancarada. É quase sexo explícito", disse o ex-ministro na entrevista, defendendo que Dilma não mudou a composição da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) à época da votação de seu impeachment, como fez Temer. 

O ex-ministro disse, ainda, que não pode haver um cenário presidencial sem Lula. "Nessa coisa não tem que ter plano B", disse. Amorim falou do risco de a extrema-direita chegar ao poder em 2018. "O Lula é a única pessoa que tem capacidade de mobilizar o povo para derrotar essas ameaças de direita e de extrema-direita", afirmou. "Não é nem para ganhar do PSDB tradicional, não, é para ganhar de pessoas que são antipolíticas e antidemocráticas."

O ex-chanceler falou ainda em "automortificação" da Lava Jato. "É muito delicado falar desse assunto, porque eu não quero defender de modo algum as ações erradas que foram praticadas. Agora, eu acho que sim, houve uma automortificação", disse na entrevista. Ele lembra que a corrupção envolvendo empresas não é exclusividade do Brasil e cita França, Espanha, Estados Unidos. "Eu nunca vi uma campanha acirrada, nem da justiça americana, nem da justiça alemã, para destruir todas as suas empresas. Você teria que ir corrigindo as coisas, mandar embora as pessoas ligadas àquelas práticas, e ir consertando".

Amorim criticou algumas colaborações para investigar a corrupção no exterior, como da Petrobras e da Odebrecht. "São assuntos nossos, para serem resolvidos aqui", afirmou. "Houve um compartilhamento de dados com a Justiça Americana que teve efeitos graves".

Amorim defendeu, ainda, uma reaproximação entre Lula e o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso para um entendimento a respeito da reforma política. Para ele, os escândalos de corrupção estão atrelados ao financiamento de campanhas e cabe ao próximo presidente convocar uma Constituinte para promover as mudanças no sistema eleitoral. 

"Todos os problemas que ocorreram, Mensalão, Petrolão, estão ligados a financiamento de campanha. E isso está ligado ao alto custo da eleição. Se a eleição for cara, você pode fazer as proibições que fizer que o dinheiro vai continuar aparecendo, seja por caixa 2, caixa 3, caixa 4", disse à publicação. 

Amorim também avaliou negativamente a política externa de Temer e do atual ministro Aloysio Nunes (PSDB). Ele avalia que houve uma "queda brutal" em comparação aos governos anteriores. "Você não percebe mais a presença do Brasil", disse. Ainda segundo ele, o País tem atuado numa posição passiva. "Nos melhores momentos é passiva. Nos piores, é desastrada", disse. 

Sobre a situação com a Venezuela, o ex-chanceler mais longevo do País disse que o Brasil "sumiu". "Se colocou em uma posição em que não há diálogo", disse.

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